domingo, 26 de fevereiro de 2012

HISTÓRIAS DE NINGUÉM (meu terceiro livro [romance] ainda não públicado)

HISTÓRIAS DE NINGUÉM

(meu terceiro livro [romance])

(ainda não publicado)

Foi o bêbado mais inchado da cidade, de olhos vermelhos e recendendo a azedo, que chegou resmungando no bar. Aproximou-se do balcão. Tomou uma pinga. Pediu um tira-gosto qualquer. Eu estava encostado à parede ao lado. Saí de perto pra evitar a aproximação daquele sujeito. Parei de pé na porta e me encostei ao batente. Após beber a pinga, o moço pôs o copo sobre o balcão. Não dei sorte. Ele veio atrás de mim, deu-me um leve toque na barriga. Saco!

---- Oi, Júlio César?

---- Oi.

---- Num trabaia de pintor mais, não?

---- Trabalho.

---- Num foi trabaiá hoje?

---- Tô sem serviço.

---- Sabe aquele prédio alto que o dotôr Amorim tocava lá na praça?

---- Sei.

---- Pois é; tem uma placa lá na frente dele pidino pião. Pedrero. Pintor. Servente. Eletricista tamém! Carpintero!

---- Mas aquela obra tava parada, porra!

---- Tava mesmo, mais uma firma da capital vai tocá ela. É purisso que tão pidino pião.

---- Vamos lá então!

---- Vãobora.

Demorou a chegar a minha vez. Sentei-me em frente ao moço. E1e me estendeu a mão, eu lhe entreguei a carteira profissional. Chamava-se Mateus. Leu minha carteira sem fazer observações e me mandou voltar dali a três dias. Exatamente no principio da semana seguinte. Podia levar roupa de serviço pra começar o trampo. Eu fora aceito na firma.

À noite, após a saída do pessoal, a obra se transformava em uma cidade em tarde de domingo: ninguém! Em cada canto, a marca pessoal de um peão: um par de chinelos de borracha remendados com arame, o par de botas. Logo acima, pendurada em um prego na parede, a roupa de serviço: uma ca1ça imunda, normalmente esfrangalhada, e a camisa suja, rasgada. Em cima, o capacete de segurança, de cores fortes. Se alguém ia fazer hora extra, o silêncio era quebrado um pouco, mas não muito. Havia como que um respeito tácito, implícito, dos operários, pelo seu local de trabalho, túmulo capitalista em que eles enterravam o melhor de suas vidas e de sua saúde para encher de dinheiro o rabo do patrão.

Mateus era da capital, o dono da firma era parente distante de sua família. Por isso ele conseguira o emprego de escriturário, embora não tivesse qualquer experiência. Detestava o serviço. Principiara o curso de Letras em uma universidade federal, mas, não terminara os estudos, embora mantivesse o hábito da leitura. Tinha sempre alguns livros por perto. Eu demorei a ter coragem de tocar no assunto das manchas com o cara:

---- Você já nasceu com estas manchas?

Ele olhou um pouco as costas das mãos e os braços feios:

---- Não, isto começou a aparecer a uns dois anos. Depois se alastrou. Esta merda!

Mateus costumava me contar as façanhas que tinha perpetrado na capital, até que o pai perdesse a cabeça e o tivesse pressionado a largar a vagabundagem e a trabalhar. As muitas vezes que perdera aulas da faculdade pra pitar maconha e beber a noite inteira e terminara a noite na cadela, sem ao menos saber porquê. As vezes que tinha roubado carros apenas pra dar uma voltinha e depois abandoná-los. As muitas vezes que entrara em pomares de pessoas velhas pra apanhar frutas pelo simples prazer de lhes perturbar o sossego. Mateus, pelo que eu via, em mais ordinário do que parecia. Talvez o vitiligo fosse um castigo! Uma coisa que o cara me contou realmente me deixou chapado.

Na primeira oportunidade que tive a grana nas mãos, corri para um telefone, após ter escolhido um número nos classificados do jornal. Uma mulher atendeu. A voz prometia. Tratamos o encontro. Fui correndo para seu apartamento. Era começo de noite quando toquei na campainha. A mulher que me abriu a porta era simplesmente um sonho.

---- Oi! - ela cumprimentou.

Eu só consegui sorrir em resposta.

---- Meu nome é Sara.

---- Vamos pra cama!

Ela me pegou pela mão e me conduziu. Era a dona da situação. O quarto de Sara era ótimo. Grande, lindas cortinas azul-claro. Um grosso tapete no chão. Um enorme espelho pendurado sobre uma penteadeira. A cama era larga, de fofura média. Propícia para uma foda. Sara ligou o som da vitrola. Música romântica, baixinho. A mulher me deitou de bruços. Quase desfaleci ao contato daquelas mãos de veludo. Parecia que a moça estava gostando do meu corpo. Parava com as caricias em determinado lugar, demorava-se, lambia, mordiscava. Eu já estava louco de vontade de enfiar nela o peru. Mas isto ainda demorou. Antes, ela me virou de costas, e repetiu todo o processo com a parte frontal do corpo. A cara trabalhava compenetrada. Gostava mesmo de homem! Por fim, disse:

Mas, quando me dei conta, estava lambendo o leite de todas as partes daquele corpo. Minha língua escorregando naquela pele lisa, lisa, e a mulher me acariciando. E não resisti quando Sara me beijou com força, com a boca pegajosa de minha própria porra. E nem acreditei no que eu mesmo fazia quando enfiei a língua no meio daquelas pernas macias, onde a mulher me oferecia uma frutinha vermelha piscando, piscando, com um grelinho aparecendo.

Vários homens da obra já tinham trepado com Tereza - a Sambeira. E ela não se importava que a gente comentasse suas transas. Era viúva, nova ainda. Branca. De cabelos castanhos ondulados. Vivia de vender pastéis e não tinha filhos. Adorava dançar. Daí o apelido.

Penso que ninguém sabia o nome de Jacaré, um pedreiro que entrara em serviço mais ou menos um mês após o reinício da obra. Só sabíamos que viera da zona metalúrgica e que era fanfarrão. Se tivesse o apelido de matraca também seria apropriado. Falava sem parar, às vezes coisas sérias, às vezes fazendo graça. Morava em uma pensão.

Contou que já passara toda sorte de apertos. Mas não reclamava. Ganhara muito dinheiro, mas gastara tudo. Vivera a vida! Bebera demais! E comera muitas mulheres. E que jamais uma mulher fora pra cama com ele e deixara de gozar.

Ao ouvir isso, os homens ligaram as antenas! Todos já sabiam que a Sambeira nunca tinha orgasmo e vinha um garganta andarilho falando que todas as mulheres gozavam com ele!

---- Como você consegue isso? Tem mulher que num goza de jeito nenhum, porra!

---- Goza! Goza sim! Todas elas goza! É preciso saber, cara!

---- Saber?! Saber o quê?

---- Saber do ponto G, intenderam? Toda muié tem o ponto G. É preciso apenas descubri onde fica o ponto G!

O ponto G! Em qual estrada aquela besta tinha aprendido aquilo? Em qual alojamento de trecho? Em qual esconderijo de lagartixa...?

---- E o que é o ponto G? - alguém perguntou.

---- G de gozá, intenderam? De gozá!

---- E onde fica ele?

Quando Jacaré ficou de pé e tirou a camisa, lvair cochichou: -- Vai cumeçá o fracasso do papudo! Depois, Jacaré tirou a calça, a cueca, as botinas, e ficou nu na frente da Sambeira. Ela ficou olhando pra ele, indiferente. A seguir, o cara se sentou mais perto da mulher. Falava qualquer coisa em voz baixa. Tereza ria. Ele passava a mão devagar em seu braço direito.

Os amantes ficaram muito tempo se lambendo, se alisando, se apertando, se amassando. Demorou algum tempo para que eles interrompessem aquilo. Jacaré não esperou pra inventar outra coisa. Virou a mulher de bruços, beijou-lhe a popa e, abrindo-lhe a bunda com as mâos, enfiou-lhe a língua melada no botão. Desta vez, a Sambeira exclamou alto; -- Ai, Jacaré!

Tereza Sambeira chegou na hora do almoço. Vestia a mesma roupa. Não tinha a cesta de pastéis. Tinha os cabelos cheios de capim.

---- Nossa Senhora, gente! Eu gozei muito, ontem! Gozei até meia-noite! Que delícia!

Ela ficou calada um momento olhando para nós, depois, disse:

---- Gozar é gostoso dimais! Dá uma tontura esquisita na gente! Uma vertigem de gente bêbada!

Nós ficamos olhando pra ela.

---- O pau de Jacaré deu até calo na minha perereca!

Depois, a mulher deu umas rodadas na rua, sambando, e cantou:

"E hoje que eu vou me acabar,

Amanhã eu não sei

Se eu chego até lá... "

Tereza era muito sapeca! Em seguida, ela perguntou, tirando um capim do cabelo:

---- Jacaré taí?

Mateus girava, em silêncio, a caneta nas pontas dos dedos. Devagar. Estava tão absorto que eu não quis quebrar o silêncio para interpelá-lo. Eu ficava imaginando o que o sujeito sentia longe de casa, com salário baixo, sem a namorada de quem tanto gostava, e com aquelas manchas horrorosas se espalhando mais e mais pelo rosto, pelos braços. Afinal, ele perguntou:

---- Júlio César, como é a vida dos operários?

Antes de responder, fiz um minuto de silêncio assustado! Eu esperava que o cara logo tentasse se desligar daquele povo marginalizado, fodido, e fosse embora, e ele vinha me fazer aquela pergunta! Surpreendente!

---- Por que você quer saber?

---- Como é a vida desse povo, cara? Eu quero saber!

---- Normalmente, é merda! É a pior possível!

---- Como assim? Em que sentido?

---- Bom, como você pode observar, tudo o que se refere a operários se relaciona à pobreza, quando não à miséria. Nos cálculos estatísticos do custo de vida, por exemplo, você nunca lê ou ouve falar em "o custo de vida subiu tanto para a classe operária”, ou "o aluguel da classe operária ficou em x ... ". É só: "o custo de "ida da classe média subiu tanto ... '" "a classe média foi arrochada pela alta do aluguel", "está alta a importação de brinquedos para os filhos da classe média", "o governo está providenciando financiamento para moradias da classe média”, "a classe média está viajando mais ao exterior", "a mensalidade escolar dos filhos da classe média...."." Na escala social, é como se o operário não existisse - é como se fosse uma classe de merda, de nada. É como se houvesse uma lacuna na base da pirâmide social. Como se existisse um monte de ninguém.

---- E como é a vida dos operários na sociedade?

---- Que sociedade, cara!? Pois se os operários podem mal e mal andar nas ruas! Eles têm uma expressão que sintetiza a discriminação, que diz: Em festa de inhambu jacu não entra! Isto porque se sentem desconsiderados, humilhados, desprezados - são a classe dos ninguém - as pessoas de classe social inferior. Então, consciente ou inconscientemente, eles evitam os lugares freqüentados por pessoas bem vestidas, elegantes, afetadas. Quando entram em lojas chiques. o fazem ressabiados, com medo de serem confundidos com ladrões, ou mesmo receosos de serem acusados de algum roubo eventual. Procedem do mesmo modo em restaurantes, em bares, com medo de serem escorraçados.

---- É o seguinte: nós podíamos conseguir histórias de operários e escrever um livro, ou mais de um, relacionado com a vida desse povo. Deve haver muita coisa interessante a respeito dessas pessoas. É um campo inexplorado. E ninguém se preocupa com essa gente! Depois, nós arranjamos um editor e ganhamos uma boa grana. Se esse tipo de literatura pegar, pode - se mesmo ganhar muito dinheiro, cara! Entre nessa comigo que nós dividimos os lucros dos direitos autorais!

---- Mas eu não entendo nada disso - respondi - eu posso procurar saber de histórias, falar com os caras para lhe contar algum fato relevante. Só isso!

---- É suficiente para fazermos o corpo do livro. E você pode tentar imaginar uma história de amor para eu usar no livro. Eu vou tentar construir um romance, que é o que tem mais apelo popular. A gente mistura situações, casos diferentes. Com o tempo, o livro começa a se desenvolver por si.

---- Você seria capaz de escrevê–lo?

---- Eu já li centenas de livros, cara! E tenho noção de escrita de romances. É preciso observar as pessoas. Seus atos e gestos, seu jeito de falar, de andar. Suas roupas, sua interação com o ambiente. O papel que desempenham no contexto social. As limitações impostas pelas convenções sociais! Deve-se também observar a natureza. O sol subindo numa árvore. A formiga andando no chão. As sombras cobrindo os morros ao entardecer. A beleza da aurora. Os dias cinzentos, chuvosos. A lua. Os pássaros. É preciso observar o mundo como um todo! E o livro deve ser um retrato da sociedade, de modo que as pessoas que o lerem, daqui a alguns anos, saibam como era a cidade, bem como seus habitantes. Tenham um retrato da realidade atual!

Eu, então, disse aos operários que o escriturário estava pensando em escrever um livro sobre o pessoal de obras. Que ele precisava de muitas histórias, de qualquer tipo, de encheção de saco. De exploração. Histórias com pessoas da sociedade, também. As reações foram as mais variadas:

---- Oh, bobo! O pessoal da sociedade persegue a gente!

---- Eu tô fora dessa!

---- Lespra!

---- E cumé qui eu vô tratá de famia?

---- Quem cunversa dimais leva tinta!

Eu, então, expliquei que a pessoa podia escrever, ou mandar alguém escrever, se fosse completamente analfabeto, e enfiar debaixo da porta do escritório. Não era preciso colocar o nome. Que falassem com os outros operários, de qualquer obra, de qualquer bairro da cidade.

Mateus abriu a gaveta da escrivaninha, retirou um livrinho, e me passou. Era "Estrutura do Romance", de Edwin Muir.

---- Eu vou estudar isso a fundo, você vai me ajudar a conseguir histórias, e nos vamos ganhar dinheiro. Este livro vai ser o primeiro de uma série de sucessos!

---- Deus queira!

Os homens riram. Me deram conselhos. Disseram que eu não me assustasse com mulher nua. Que enfiasse o peru só depois de ter amassado a mulher um pouco pra ela ficar com tesão. Eu devia acariciá-la hem devagar. Apertar os peitinhos. E que depois do pau dentro, eu não devia deixá-lo escapulir de jeito nenhum porque as mulheres ficam com raiva. Que trepasse buscando os cantinhos, que as mulheres acham gostoso.

Os caras me alertaram para os vários tipos de orgasmo. Algumas mulheres gozavam gritando, uns dois ou três minutos após o início da trepada. Que outras prendiam a gente numa chave de pernas e ficavam gemendo e peneirando em baixo da gente. Outras riam. E outras pediam para morrer: Me mata! Me mata!

Havia outras ainda que enfiavam as unhas nas costas da gente, enquanto chupavam cana. E outras ficavam sussurrando nos ouvidos da gente, fazendo ai, ai, e chamando a gente de benzinho.

Eu fiquei ouvindo aquilo com a boca aberta, com olhar curioso.

Aquilo era tudo novidade pra mim.

Ao notar que eu tava tentando fazê-la gozar, a mulher deu uma risadinha de deboche e fez:

---- Huumm!

Quase imediatamente, ela falou:

---- Tá molhado aqui em baixo! Deixa ver o que é?

Dizendo isto, ela se levantou e, saindo de baixo de mim, acendeu a luz.

---- Sangue! - exclamou. O lençol, debaixo da bunda da mulher,

estava todo ensangüentado!

---- Mas de onde saiu este sangue? - perguntei.

---- Sei lá! Isto deve ser algum problema seu!

---- Meu não! Eu não tenho problema de por sangue pelo peru! Nunca tive!

---- Mais é um bobo mesmo! - alguém exclamou.

---- É trouxa demais! - um ninguém emendou.

---- Num disconfiô que a muié tava menstruada, cara? – outro inseto falou.

---- Vai vê qui ela falô com ele qui ela era virge ainda e ele acriditô, achano qui tinha tirado um cabaço! - completaram.

Fiz papel de palhaço. Todo mundo ria de mim.

---- Calma, gente, calma! - mais um ninguém contemporizou - o rapaz tá conhecendo essas coisas agora! Depois ele acostuma! Depois tudo conserta!

---- Que dia você vai voltar lá?

---- Não sei. Depois resolvo!

Durante alguns dias fiquei ouvindo deboche nos meus ouvidos.

---- Sabe qual o nome que os operários dão pra este lugar?

---- Não.

---- Cudomínio!

---- Cu por que?

---- Eles fazem analogia com os condomínios fechados onde moram as pessoas de nível social superior. Os doutores, os professores, os grandes comerciantes, os empresários. As pessoas da sociedade!

---- Hhuummm!

---- É uma forma de ironizar o bairro .

---- É! Realmente, é bastante diferente de um condomínio fechado.

Mateus tirou uma folha de papel do bolso, uma caneta, abriu sobre o joelho e fez algumas anotações e um esboço do fundo do vale, inclusive das nuvens e dos morros longínquos.

Depois, ficamos sentados no chão, conversando, até que o sol desapareceu atrás do morro, colorindo as nuvens de vermelho.

Demorei poucos dias a voltar à zona. Voltei de dia. Por acaso, encontrei a mesma mulher. Quando a vi, de longe, ela estava sentada no meio-fio. Passava a mão nas pernas, como se estivesse tirando alguma coisa que a incomodasse. Fiquei sem jeito de chegar perto dela. Parei com as mãos na cintura, enquanto fingia olhar distraído para o lado. Ela se levantou, ao me ver, e se aproximou de mim:

---- Você é o cara que transou comigo no dia do sangue, não é? ------- Eu mesmo.

---- Eu tava menstruada naquele dia.

---- E nem me avisou, cara?

---- Você ficou insistindo, porra! E eu precisava levantar uma grana.

A mulher ficou me olhando de alto a baixo por um momento,

Depois, perguntou:

---- Aquela noite foi sua primeira trepada, não foi?

---- Por que você sabe?

---- Sou velha no pedaço, cara. É lógico que eu sei!

---- Foi minha primeira foda, sim!

---- Gostou?

---- Não!

---- Vamos pra cama?

Vacilei um pouco. Um segundo fracasso podia ser traumatizante.

Mas, fomos. A cama estava do mesmo jeito que a vez anterior. Tudo a

mesma coisa.

Depois desse dia, fiquei amigo de Auxiliadora. Às vezes, quando eu estava de folga e ela estava desocupada na zona, nós íamos pro quarto. Ela me ensinava varias posições de trepada. Eu deitado de barriga pra cima, com o pau bem duro e ela, de frente pra mim, me enfiando a xoxota; esta é, talvez, a melhor posição, porque a mulher fica inteira na nossa mão. Eu encostado à parede, sentado com o pau bem duro, e ela com ele atolado na xoxota, de costas pra mim, sentada com a bunda macia, gostosa, no meu colo. Ela encostada à parede, com as pernas afastadas e abertas. Deste modo, eu abaixava o corpo e nós trepávamos com raiva, eu levantando o peru, com força, de baixo pra cima, e ela trazendo, com fúria, a boceta de cima pra baixo. E nós gemendo e suando os corpos. E nós gozávamos no chão. Era ótimo!

Depois. Auxiliadora sumiu.

.... Uma vizinha dele, que costumava levar almoço para o marido, foi quem chegou com a fofoca na obra. Que um carpinteiro chamado Alonso estava comendo a mulher do cara no meio dos pés de eucalipto, quase todo dia, depois que o marido dela saía para o serviço, desde a segunda semana do casamento! Que, ás vezes, ela trepava com ele na própria cama do casal!

Os homens da obra se reuniram pra discutir o que fazer. Aquilo não podia ficar assim. O Geraldão era boa praça! Walter foi encarregado de falar com ele. Disse:

---- Geraldão, tem um problema na sua casa que precisa ser resolvido.

---- Problema na minha casa eu resolvo. Não preciso da interferência de ninguém!

---- Nós sabemos, mas alguém veio aqui e disse que Alonso carpinteiro tá trepando com sua mulher no meio dos pés de eucalipto. Tem dia que ele come e1a na sua cama de casal.

---- Geraldão, nós vamos te arrumar um revólver amanhã, sexta· feira. Se você encontrar os dois juntos, mete fogo nos dois e foge do flagrante. Na segunda-feira você aparece. Não tem problema nenhum! Nós limpamos sua barra! Sua vizinha testemunha a seu favor.

---- Mas eu vou conseguir fazê isso? Nem nunca peguei num revólver!

---- Consegue! Consegue sim. É só se lembrar de Eva peneirando debaixo do Alonso que você puxa o gatilho!

Na segunda-feira, logo de manhã, a mulher dele apareceu na obra, com muita raiva. Estava vivinha da silva. E ralhou:

---- Que caralho deu na cabeça do Geraldão? Ele ficou resmungando pelos cantos sábado e ontem o dia inteiro. Sumiu ontem à noite e eu encontrei ele morto agora de manhã, em cima de um pedaço de papelão, no meio dos eucaliptos, bem perto de nossa casa, com um tiro na cabeça! Um buraco de bala de todo tamanho! Os homens ficaram lívidos.

---- Quem deu o revólver pra de? Silêncio.

---- Por que ele tava andando armado?

Silêncio.

---- Ele tava com algum problema?

Silêncio.

Mateus ficara tão entusiasmado com a feitura do livro que comecei a acreditar que aquilo poderia dar algum resultado favorável de fato. Ele já tinha escrito a história de Jacaré com a Sambeira, além das andanças do sujeito, a triste história de Geraldão, descrevera o prédio onde trabalhávamos, e lia muito o livro sobre a estrutura do romance que conseguira. De acordo com seu projeto, no prédio mesmo seria ambientado o romance que tencionava escrever. As descrições dos operários também estavam prontas.

Interessante é que Mateus começou a circular com desenvoltura no meio das pessoas da sociedade. Levantava-se de manhã, nos fins de semana, se arrumava direito, e ia para a porta da lanchonete mostrar os esboços do livro, observar a afetação das pessoas de nível social superior, trocar idéias esperando conseguir algum fato que pudesse usar no desenvolvimento do enredo. Às vezes, era convidado para festas em condomínios fechados, em prédios da classe alta. Ao me encontrar, sempre mostrava as anotações que tinha feito, baseadas em suas últimas observações.

E o Petrônio? Foi o último operário a ser contratado pela firma. Era o mais enigmático. E o menos enturmado com o pessoal da obra. Andava sempre limpíssimo, da cabeça aos pés. Cabelos bem penteados. Fazia o serviço de eletricista. Nunca se envolvia com os operários da obra, mas, chegava perto deles, embora mantendo uma certa distância. Colocava a mão direita no queixo, a esquerda na cintura, e ficava analisando e observando, em silêncio, o comportamento dos peões. Talvez fosse um filósofo. Ou talvez estivesse ensaiando para se tomar escritor. Só sei que costumava fazer intervenções idiotas nos papos dos operários, dizendo: “Assim disse Shakespeare", ou, "de acordo com a teoria psicanalítica de Lacan....”

Recitava poesias em voz baixa. Andava sempre com recortes de seções culturais de jornais nos bolsas das calças. Seu comportamento era indefinido: não se sabia se gostava dos operários ou se era amigo apenas do patrão. Sempre que ouvia alguma critica a alguém importante da cidade, dizia: ---- Gente, gente, não façam isso! O mundo é dividido em classes! Alguns mandam, outros obedecem! É a lei do mundo!

Apenas Ernâni não dizia nada. Ernâni era servente. Um bom jogador de baralho. Era forte, bastante coroa. Toda vez que saía assunto de mulher perto do cara, ele abaixava a cabeça e ficava pensativo olhando para

o chão. Foi Ivair que atentou para o fato de nunca ninguém ter visto aquele sujeito com mulher. E ele não era casado. Nunca ia à zona. Nenhuma mulher jamais dissera ter sido cantada por ele. Pior ainda, depois do horário do serviço, desaparecia. Zé Maria, saliente, perguntou:

---- Ocê num é viado, não, Ernâni?

Boa praça, o sujeito não ralhou. Apenas disse:

---- Eu não, porra! Eu gosto dimais de muié! Vê lá se ieu vô dá a bunda!

---- Negócio seguinte: eu cumecei a trepá muito cedo. Na minha casa tinha uma impregada chamada Rosa. Morena clara, forte, de pernas grossas deliciosas. Peitos grandes durinhos. A primeira vez que ela me pegou eu era muito novo ainda. Tinha treze anos. Eu tava sozinho com ela. Rosa lavava roupas e eu tava incostado no tanque, observano. Ela era sortera, muito safada. Tava isfregano roupas e me dava umas olhadas isquisitas. A gente cunversava umas gororobas sem sintido. De repente, ela me disse:

---- Naninho, passa as mão nas minhas coxas um pouquinho?

Eu nem istranhei aquilo. Eu era muito bobo.

---- Pra quê?

---- É qui eu tô com tesão!

---- Que tesão?

---- Eu tô com vontade de dá!

---- Que qui é isso?

---- Passa as mão nas minhas coxas que eu ixplico.

---- Chanfrado era o corte qui dexava uma única ponta no pau. O bico de chalera tinha uma entrada no meio e dexava duas ponta. Uma in baxo e outra in cima. Prifiri o chanfrado. Ele me cortô a cabeça do piru e eu tive de fazê um monte de curativos. Como dueu! Eu sufri pra caramba! E mmca mais tive coragi de tirá a roupa na frente de uma muié! En não! Um pau isquisito desses! E o medo de pegá duença grave outra vez e ficá sem o resto?!

---- E sua muIher dentro do guarda-roupa?

---- É de burracha, porra!

Os homens viraram a cara pro outro lado de modo a não ver aquele troço esquisito. Logo depois, o dono do pedaço de peru levantou as roupas e ninguém fez nenhuma observação. Ernâni não era viado mesmo não! Era o maior comedor de borracha da paróquia! Cruz credo!

---- Que idéia foi essa sua de trepar comigo sabendo que tava com gonorréia, cara? Será que sabe que eu trabalho, que sou um fodido, que tenho de aproveitar todos os dias da semana?

---- Eu num sabia que tava doente, porra! Só cumecei a sinti dor no dumingo à noite. Se eu soubesse tinha te avisado.

---- Não acredito! Você sabia!

---- Júlio César, pegá uma gonorréia é como tê um acidente de trabaio. Acontece quando se menos espera. Ocê acha qui eu sei quando tou transano com um cara com gonorréia? Não! Lógico qui não! Essa gonô foi um acidente!

---- Mas eu fiquei puto, porra! Me deu uma mão-de-obra danada!

---- Mais aconteceu e já acabou. Se num quer corrê o risco de pegá duença, num trepa com puta!

Cida tinha razão. O melhor era sair fora da zona, mesmo! O diabo é que eu não estava considerando esta hipótese. Eu nem consegui ficar com raiva da mulher. Só não transamos mais.

Mateus teve um grande susto e um motivo de preocupação certo dia de manhã. Eu também fiquei intrigado. Ele me chamara ao escritório. Queria ver se eu conseguia identificar o remetente de um texto que havia sido deixado sob a porta, durante a noite. Eu me sentara ao lado da escrivaninha e lia a historia. Eram três paginas de garranchos e de erros de linguagem. Quase ilegíveis. Ouvi passos no assoalho de madeira da casa velha. Percebi quando pessoas entraram no escritório e pararam a uma certa distância da escrivaninha. Não levantei os olhos, tão absorto estava na leitura. Apenas o fiz após ouvir a voz de Mateus:

---- Bom dia! Posso servi-los em alguma coisa?

Levei um susto! Era o prefeito da cidade! Com uma mulher! Tinha o peito excessivamente estufado, o nariz excessivamente empinado, a tez avermelhada, os dentes trincados! Cu de porco era bonito perto da cara de merda com que ele olhava para o escriturário! Estava imponente, com as duas mãos dobradas sobre o saco. Era alto, barrigudo, o nariz grande, cabelos grisalhos. A mulher era alta, 1oura, da bunda larga e das coxas grossas. Bastante arrumada. Nenhum dos dois respondeu à pergunta do cara. Ficaram parados, encarando o escritor, durante certo tempo, depois, saíram. O homem pisava com força, dando passadas pausadas, como um autêntico

soldado SS alemão. A mulher pisava com leveza.

O escritor não entendeu a presença daquele cara no escritório e eu nada podia fazer para ajudá-lo. Apenas lhe disse que, já há algum tempo atrás, tinha havido campanha para prefeito e uma das facções das oligarquias políticas da cidade, provavelmente receosa de perder o poder local, tinha decidido pressionar as classes baixas a votarem em seu candidato --- que era aquele sujeito que aparecera no escritório. E que o falecido dono da incorporadora que construía aquele prédio, na época - o doutor Amorim - tinha feito uma reunião na garagem, o encarregado de então tinha colocado dois caixotes com o fundo virado pra cima num canto da garagem, tinha amontoado os operários no cômodo, e o candidato mais o dono da incorporadora tinham subido cada qual em um caixote, e que o cara apresentara o candidato, apontara o dedo para os peões, ameaçara com o desemprego, dizendo:

---- Se meu candidato não ganhar, você pode ser mandado embora, você pode ser

mandado embora, você pode ser mandado embora, e você... Aí, o povo tinha votado em peso naquele sujeito!

Mateus ficou me olhando com cara de indiferença. Parecia não estar acreditando em uma palavra do que eu dizia! Esperei que ele fizesse alguma observação, como tal não aconteceu, continuei:

---- Perseguem qualquer pessoa que esteja enchendo o saco?

---- Qualquer uma!

---- E se o cara for soldado?

---- Tá fodido.

---- E se o cara for pobre!

---- Tá fodido.

---- E se o cara for rico?

---- Tã fodido.

---- E se o cara for operário?

---- Tá fodido.

---- E se o cara for padre?

---- Tá fodido.

---- E se o cara for delegado?

---- Tá fodido.

---- E se o cara for preto?

---- Tá fodido.

---- E se o cara for reitor?

---- Tá fodido.

---- E se o cara for sindicalista?

Eu já estava com o saco cheio daquelas indagações do Mateus. Por um momento, fiz uma pausa, achando que ele estava com ironias. Ele ficou me encarando. Depois, continuei:

---- Se for sindicalista, o cara tá mais do que fodido!

---- E se o cara for bicha?

---- Tá fodido.

---- E se o cara for comedor?

---- Tá fodido.

---- E se o cara for gilete?

---- Tá fodido.

Mateus parou de fazer aquelas perguntas irritantes. Ficou olhando pra tela do monitor, aparentemente pensando alguma coisa.

Eu disse:

---- Em resumo, eles perseguem as pessoas que ousam ter opiniões diferentes e expressá-las. Perseguem em qualquer lugar que a pessoa esteja ou vá: na missa, no boteco, na zona, no mato, no colégio, na universidade, nos empregos (principalmente), na rua, em casa. É um inferno!

O escritor manchado teve um acesso de gargalhadas:

---- Ha! Ha! Ha! - fez ele, deitando completamente a cabeça sobre o encosto da cadeira, debochando - Ha! Ha! Ha!

Mesmo detestando ouvir as gargalhadas do cara, eu ainda disse:

---- Os políticos da cidade, os mais antigos, os conservadores, que acham que a cidade é deles, fazem de tudo para inviabilizar a vida de seus possíveis adversários, para forçá-los a sair da cidade, entende?

---- Mas, Júlio Cesar, primeiro você me diz que os operários são explorados, são humilhados, sofrem deboche por qualquer motivo; depois me diz que eles têm medo até de andar nas ruas, de entrar em lojas, de abrir a boca, de chegar perto das pessoas de nível social superior. Agora inventa uma reunião na garagem, porra? Acho que você tá com a cabeça muito fértil! Estas coisas que você tá me dizendo não fazem o mínimo sentido, cara!

---- Deixe-me ler alguns artigos da constituição para você: I - homens e mulheres são iguais em direitos e em obrigações; II - ninguém será obrigado a fazer ou a deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei; III - ninguém será submetido a tortura ou a tratamento desumano ou degradante; IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; V - é assegurado o direito de resposta ... IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente de censura ou licença; X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas... É livre a locomoção no território nacional em tempo de paz...

Mateus não deu mostras de ter achado graça em minha observação. Ao invés disso, trancou a cara e voltou a olhar para a tela do monitor. Eu também fiquei olhando. Esperando. O monitor entrou em descanso. Na tela, começou a se desenrolar uma história:

Há um náufrago solitário numa diminuta ilha deserta. Apenas um triste náufrago solitário e um pé de cocos. A lua brilha. Seus reflexos criam pálidas figuras na água. O triste náufrago solitário dá voltas inúteis ao redor do coqueiro: é preciso sair dali! Mas, como?

Tirei os olhos da tela do monitor e os fixei no escritor. Eureca! Por um momento eu achei que tivesse descoberto o remédio para o vitiligo: era só o cara ficar permanentemente com raiva! As manchas da cara do Mateus tinham desaparecido todas! Ele ficara vermelhíssimo! Putíssimo!

E o escritor ainda pensava.

---- O trinômio da mesquinharia!

---- Isso mesmo! Os políticos, principalmente os mais antigos, têm os correligionários deles, que se infiltram em todos os meios, em todos os lugares. Sempre que ouvem alguma coisa que pensam vai desagradar a um dos caciques, ou sempre que ficam sabendo de alguma coisa que possa ser usada pra foder um suposto adversário, correm a lhe dizer!

---- Ao se assistir televisão, é comum se ver a esposa do prefeito dando uma sacola de alimento não-perecível às mães de crianças carentes e dando um tapinha bem carinhoso nas cabecinhas dos nenês das mulheres. Se estas pessoas costumassem reclamar de qualquer coisa que incomodasse o prefeito ou a sua esposa, ou a algum figurão da cidade, a perseguição política ocuparia o lugar da sacola de alimentos! Acredita?

---- Se você está dizendo!

Mateus tem profundos pensares. Escora o queixo na mão direita. Apóia o cotovelo no tampo da mesa. Por fim, diz:

---- Ditaduras são um problema! Primeiro, Getúlio Vargas! Depois 1964! O uso do cachimbo...

----- Júlio César, houve um presidente da republica que deixou marcas profundas no modo de se fazer política na vida pública do país!

---- O que ele fazia?

---- Infernizava a vida das pessoas que ele considerava adversárias. Perseguia, desempregava, fazia sumir! Em suma – caçava! E arranjou uma rede de espiões pra tomar conta da vida das pessoas, também!

----- Quando?

---- Antigamente! Lá no princípio do século passado!

---- Quem era ele?

---- Arthur Bernardes!***

---- É mesmo?! - exclamei.

Deixei meu olhar vagar pela mesa, pelas paredes, enquanto pensava. Mateus olhava, ora para mim, ora para o monitor. Para o nada! Pensava, do mesmo modo.

---- Será que... -- começou a dizer. Parou.

---- Eu acho então que... -- eu comecei. Parei. Mateus olhava interrogativamente pra minha cara. Ele estava pensando o mesmo que eu!

---- Então, eles aprenderam com Arthur Bernardes! - eu disse.

---- Vou dar um enfoque sócio-político ao livro! Pretendo provocar uma mudança, uma democratização, uma modernização na cidade!

A maldição das manchas! A piração das letras!

---- Manda brasa, cara! Ponha todos esses troços aí!

Encontrei-me com Jesus na praça. Estava bêbado. Tinha o corpo jogado para a frente, como se preparando um mergulho. Pernas e braços abertos. O topete na testa. A calça marrom em frangalhos. A camisa amarela em frangalhos. Os pés no chão. Tentei sair fora dele. Não consegui. Ele colocou a mão direita sobre o meu ombro esquerdo, Tentei desviar o rosto daquele bafo de pinga, daquele cheiro ruim de cacos de dentes:

---- Ocê... ocê .. .ta sujo, cara! Tava interrado?

---- Tô com pressa!

---- A pulícia tá atrais docê aí! O que qui ocê arrumô?

---- O quê?

---- É isso mesmo! Aquele iscriturário man... man ... manchado... nois pensemo... qui... ocê tinha ... tinha... sumido com ele!

---- O que ele fez?

Eu comecei a sentir vertigem. A bola de gelo voltou a crescer no

---- Ele .... de ... deu um gorpe. na filma... tiro um monte de grana ... onti di dia... e sumiu com ... com o dinhero!

---- E as roupas dele? As coisas dele?

---- Levô tudim ... tudim! Num dexõ nada pra trais!

---- Meu Deus! - eu exclamei – e o livro?

---- Qui livro? Tá bebo, cara?

Desvencilhei-me dele. Saí em disparada pra casa. Não andei quinhentos metros e dei de cara com o Petrônio. Nojento! Ele estava lá, encostado a um prédio, tranqüilamente fumando um cigarro. Punha o pito nos lábios, puxava vagarosamente a fumaça, fechava os olhos, levantava um pouco o nariz, e soltava a fumaça, fazendo círculos perfeitos com um movimento da língua dentro da boca. Tentei escapulir dele, mas foi impossível:

---- Olá, Júlio César?

---- Olá!

---- Você tava sumido!

---- Tava na capital, você tá cansado de saber disso!

---- Viajando, então?

Que saco, porra! Eu tava quase mandando aquele cara ir tomar no cu!

---- É!

---- Você tá suado! Sujo!

---- Tava correndo na poeira!

---- Quero te contar um negócio.

---- Tô com muita pressa!

---- É importante pra você!

---- ENTÃO FALA, CARALHO!

---- He! He! Foi o prefeito da cidade! Ele descobriu tudo a respeito do livro!

---- GRACINHA... E ENTÃO?

---- Então, ele mandou espalhar por todos os lados da cidade que Mateus tinha virado bicha!

---- E quando ele passava perto dos motoristas de táxi que o reconheciam...? Eles apontavam os dedos e diziam: --- olha lá, gente, a boneca mais nova da cidade!

---- Espere aí – eu tentei dizer – mas tem um negócio...!

Petrônio, aquele filho de uma puta, perdera completamente a cabeça por causa da façanha do prefeito e de seus cupinchas! Dava um risinho curto, de vez em quando, e emendava:

---- E nas portas dos salões de beleza! As mulheres apontavam pra ele e falavam: --- olha lá, o cara que virou bicha, gente! Coitado! Será que ele se cansou das pererecas?

---- Parece não! – outra dizia – Vai ver, ele joga nas duas!

---- Gilete ele? A primeira lâmina faz tchan, a segunda faz tchan, tchan, e a terceira faz tchan, tchan, tchan...!

---- HEI, EU QUERO FAZER UMA PERGUNTA, PORRA!-exclamei com raiva, entorpecido de desgosto-ELE CONVIVEU COMIGO MUITO TEMPO E É MUITO CHEGADO NUMA BOCETA, POR QUE O PREFEITO MANDOU ESPALHAR QUE ELE VIROU BICHA?

Petrônio não respondeu de pronto. Ainda deu outra tragada no cigarro, soltou a fumaça devagar, fazendo círculos, deu uma olhada no toco que já quase lhe queimava a mão, e disse:

---- He! He! O prefeito mandou espalhar que o Mateus enfiou uma garrafa na bunda!

---- GARRAFA?!

---- HA! HA!

O que era aquilo, porra? Pra mim, não passava de brincadeira daquele cara! Mas Petrônio apertava com força a mão esquerda sobre a boca, tentando abafar o riso! Suas bochechas estavam inchadas, avermelhadas!

---- Garrafa?!

---- E, toda hora que a mulher do prefeito via o cara, ela dizia: -- olha o cara que enfiou a garrafa na bunda, gente! Virou bicha... e fica falando mal da cidade, ainda!

---- Garrafa?!

---- .... ?!!

---- Sabe o que dois maconheiros falaram quando viram ele na rua, cara? Ele ia passando e um falou assim com o outro: --- "Olha lá, bicho, o cara que infiô a garrafa já vai ali; saca!" e o outro exclamou: -- "É mesmo!? Num garrô no saco, não, cara? Ha! Ha! Ha! E um gringo viu ele e falou:

---- Una garrafa?! ULA-LÁÁÁ!

---- HEI! EU PRECISO...

---- Sabe aquele maluco gordo que fica catando latas e papelão e falando sozinho pelas ruas? Aquele que usa uns brincos esquisitos na orelha e só anda com a bunda cheia de pinga? Pois ele, pra fazer graça, saiu falando que ‛a muié do prefeito infiô aquela bundona branquela lá dela na garrafa, he, he, he’, debochando porque a esposa do prefeito tem a bunda muito grande, e o prefeito mandou avisar pra ele que, se ele não parasse com isso, ele, o prefeito, mandaria lhe dar uma surra e o faria sair da cidade pra nunca mais. Aqui, ele não cataria mais nada!

---- Mas como o Mateus ficou?! Ele...

Eu apertei minha cabeça entre as mãos e fechei os olhos. Sentia um enorme desconforto interior. Meu estômago embru1hava, minhas têmporas latejavam, minha cabeça zunia, minhas pernas estavam bambas. Eu estava triste! Eu estava quase chorando! E Petrônio tinha perdido completamente a compostura. Era a primeira vez que eu o via agir daquele modo. Palhaço! Ele pulava, ora num pé, ora no outro, rebolava a bunda, e cantava:

"Mesmo que eu mande em garrafas

Mensagens por todo o mar

Meu coração tropical

Partirá esse gelo e irá..."

---- Me diga uma coisa: como poderia uma pessoa enfiar uma garrafa uma bunda?

Era a primeira vez que aquele desgraçado evitava me olhar nos olhos. Olhou de um lado para outro, sem graça, passou a mão direita no queixo, depois, ficou mirando o chão em silêncio, enquanto movia a guimba do cigarro com o bico do sapato, pensativo.

---- Como?

Petrônio continuava do mesmo modo. Eu fui tomado de uma raiva incontroláve1. Berrei, com todas as minhas forças:

---- COMO, SEU FILHO DE UMA PUTA? EU QUERO SABER!

Silêncio.

---- E, ficando bem falado, Júlio César, a sociedade vai dar sempre esmolas para você e sua família. Roupas velhas. Sapatos velhos. E, quando você morrer, talvez a prefeitura compre uma urna novinha pra você! Ou pra sua mulher, se for o caso. Quer reconhecimento melhor do que esse?

---- ESPORRO EM CIMA DE SUAS PALAVRAS!

---- Com todos os operários obedientes assim, Júlio César, o pais vai ser melhor! Todo mundo vai viver em paz! Cada camada social respeitando a outra! Todo mundo vai ser alegre, feliz! Lembre-se, rapaz: ordem e progresso!

---- FOI VOCÊ QUEM MANDOU AQUELA CARTA! FOI VOCÊ QUEM DEDUROU O MATEUS COM O PREFEITO, DESGRAÇADO! POR ISSO ELE FOI AO ESCRITÓRIO, UM DIA, CONHECÊ-LO! - gritei com o Petrônio - FOI VOCÊ!

Silêncio.

---- Você precisa compreender, Júlio César, o mundo é dividido em classes!

--- É PRECISO MANTER O STATUS QUO DA SOCIEDADE, JULIO CÉSAR!

---- STATUS CU! SOClEBUNDA! VÁ À PUTA QUE TE PARIU!

Virei as costas. Saí em disparada para o meu quarto.

Despi-me de minhas roupas. Peguei a toalha. Entrei no banheiro. Abri o chuveiro. Abri pouco. A água começou a cair. Encostei-me à parede de azulejos. Eu estava assustado! Atordoado. Entorpecido... e cansado; muito cansado. Comecei, lentamente, a escorregar as costas em direção ao piso, até que me sentei com as pernas dobradas de encontro ao peito. Dobrei os braços sobre os joelhos e encostei a cabeça sobre eles.

Eu estava fodido!

Fodid

Fodi

Fod

Fo

F...

E minha Quidinha ia aparecer na televisão recebendo uma sacola de alimentos não-perecíveis das mãos da esposa do prefeito.

E a esposa do prefeito ia dar

um tapinha

bem carinhoso

na cabecinha

do meu

nenê.

Então, começo a ouvir o barulho contínuo e seco da Mauser nove milímetros. As balas zunem à minha volta, eu me curvo ao máximo e continuo a correr. Mas, elas começam a me atingir em cheio, nos braços, no tronco, na cabeça. Como queimam! Eu sinto dor. Tropeço. Caio. Então, acordo assustado!

Eu abrira pouco a torneira. Cai pouca água do chuveiro elétrico. A água está fervendo, me sapecando, e o vapor tomou conta do cômodo. Ajusto rapidamente o jato e me banho, bem devagar...

Era a Vagabunda que tinha batido o portão. Tinha se deitado de bunda pra cima na minha cama, com o testeiro da ferramenta de trabalho virado pra baixo. E tinha deixado aberta a porta do quarto! Nem estava ali! Estava de olhos fechados e não os abriu quando joguei a toalha sobre a cama. Bati a porta do quarto.

---- Cumeu a gostosa lá na capital, cara? - perguntou, debochando.

---- A muié do prefeito falô comigo qui ele infiô uma garrafa na bunda, Julinho -- e virô bicha! E fica falano mal da cidade, ainda!

faltava me aparecer aquilo!

---- Vira esta boceta pra cima, cara, senão eu enfio o pau neste rabo seu agora mesmo! -- eu disse, com rispidez.

---- Tem portância, não, querido! Eu dexo! - ela respondeu.

Mas se virou de costas. Tirou a calcinha. A saia. Abriu as pernas. Deitei-me em cima daquilo. Segurei-lhe os ombros, enfiando as mãos debaixo de seu corpo. Ela jogou, com displicência, os braços em volta do meu pescoço. E estava de bom humor, a putona!

---- Julinho, ocê me ama?

Vagabunda!

Encarquei nela o peru!

Ela grunhiu como uma porca.

Eu estava tristíssimo!

Eu estava soluçando!

Eu tinha os olhos cheios de lágrimas!

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