Em 1768, um misterioso imigrante português – o Irmão Lourenço de Nossa Senhora (cujo nome, antes de receber a Ordem Terceira de São Francisco, era Carlos Mendonça de Távora) - subiu a serra do Caraça e, encantado com a beleza da paisagem, decidiu erguer, no vale, no sopé das montanhas, um - como ele chamou – hospício, ou casa de repouso e meditação. Lançando mão de sua pequena fortuna, parte trazida de Portugal e parte adquirida provavelmente no comércio de pedras preciosas e ouro, e com a ajuda de seus escravos, construiu dois enormes conjuntos de aposentos e uma pequena capela central, sendo a ermida inaugurada em 1774, para onde, após a chegada de padres europeus, primeiro portugueses e, depois, franceses (vieram também padres de outros países europeus: holandeses, belgas, italianos, suíços, poloneses, espanhóis, persas), cuja vinda fora ordenada por D. João VI, a quem o Irmão Lourenço doara as terras e as construções, acorriam os fiéis moradores do pé da serra e das cidades das redondezas para as celebrações. No Caraça foi instalado, em 1820, um colégio de meninos, vontade do Irmão Lourenço, após o aumento em suas dependências. Devido à excelência de seu ensino e à rigidez de suas normas de conduta, estabelecidas pelo padre português que foi o primeiro superior do Caraça, o padre Leandro Rebello de Peixoto e Castro, o Caraça se tornou o colégio mais afamado do Brasil. Inúmeros políticos, médicos, engenheiros, professores, advogados, escritores, profissionais liberais de várias áreas tiveram os alicerces de sua formação moral e intelectual fundados no Caraça. Para lá os pais de boa fortuna mandavam seus filhos pequenos em busca de sólida formação humanística.
Na madrugada de 28 de maio de 1968, um fogareiro esquecido aceso por um aluno que estivera trabalhando na encadernação no princípio da noite provocou um devastador incêndio que pôs fim ao Caraça como instituição de ensino. Dois terços de sua biblioteca, pejada de livros raríssimos, se perderam no incêndio. A parte interna do prédio onde funcionavam - além da biblioteca - os salões de estudo, o laboratório de química e física, a enfermaria, as salas de aulas, e os dormitórios, ruiu. Dentro de três anos, o Caraça faria 150 anos de funcionamento como colégio/seminário. Os padres lazaristas já estavam preparando as festividades. Ao invés disso, no dia 28 de maio de 1968, os alunos foram mandados de volta para suas casas. A era Colégio do Caraça chegara ao fim.
A SERRA EM CHAMAS
(a morte do Caraça)
romance
Em fins do século dezessete e princípio do século dezoito, no começo da corrida do ouro e das pedras preciosas nas então Minas, que viriam, mais tarde, a serem Gerais, com a disseminação da notícia de que as pepitas apareciam sobre a terra e nos leitos e margens dos rios como pedras comuns, e com o boato de que havia veios auríferos intermináveis em várias regiões e pessoas enriquecendo da noite para o dia, povos de todas as partes do mundo acorreram, aos milhares, para o inóspito desconhecido. Por isso é tão comum se encontrar, hoje, em Minas, descendentes de nações mais improváveis, além dos - como seria de se esperar - portugueses: libaneses, ingleses, turcos, sírios, e muitos outros, em lugares tão diferentes quanto Piranga, Ouro Preto, Porto Firme, Diamantina, São João Del Rei, Mariana, Cajuri, cidades da zona metalúrgica e do entorno de Belo Horizonte, e mesmo em lugarejos remotos, sem nenhuma expressão geográfica, enfim, onde se tenha tido, na ocasião, notícia, mesmo que infundada, da possibilidade de haver qualquer tipo de pedra preciosa e de riqueza fácil. Com a chegada das pessoas, não obstante a repressão ao contrabando e o controle pela coroa portuguesa, os garimpeiros e faiscadores continuaram sua frenética diuturna busca do ouro e dos diamantes e, à noite, as montanhas e margens dos rios mineiros literalmente brilhavam no escuro.
Mas nem só de ouro e diamantes era rico o solo de Minas Gerais. Com a decadência de quase todas as lavras (pelo menos as de fácil extração), outro tipo de metal, embora não tão valioso em menores quantidades, veio ocupar o lugar dos metais nobres: o minério de ferro. E, neste setor econômico, Minas Gerais se revelou privilegiado. Minérios de variáveis teores ferríferos foram encontrados em vários locais do estado, e seu achado coincidiu com a incipiente, mas crescente, industrialização do Brasil e também do mundo, e o país se tornou um grande exportador de minério de ferro e, posteriormente, de seus produtos industrializados, além de fornecer matéria beneficiada para as indústrias do país. Mas cedo a instalação de altos-fornos trouxe um tipo de degradação ao meio ambiente – a destruição das matas nativas -, embora em tal época esta preocupação não fizesse parte na discussão dos temas relevantes. Devido à necessidade de carvão para as siderúrgicas, as matas próximas a elas cedo foram dizimadas, e se tornou necessário buscar carvão cada vez mais longe.
Quase ao lado de Belo Horizonte (a cem quilômetros de distância), cercada por extensas matas de eucaliptos e assentada entre montanhas ferríferas (cuja poeira rubra fez com que seus habitantes ganhassem a carinhosa alcunha de pés-de-pomba), fica a cidade de Barão de Cocais. Pequena, mas, dinâmica e de intensa vida sócio-cultural, Barão de Cocais, cidade histórica, possui, possivelmente, as jazidas de minério de ferro mais próximas de sua siderúrgica (embora minério de baixo teor), estando esta, na verdade, assentada sobre antigas jazidas desativadas. Se as terras mineiras têm morros, Barão de Cocais os tem em excesso, o que faz com que seus bairros estejam, na maioria, espalhados entre e sobre montanhas e dêem à cidade uma aparência de grandeza geográfica que ela, na realidade, não possui. Por fazer parte do quadrilátero ferrífero, a cidade é fornecedora e via de transporte de minério de ferro bruto e beneficiado (aço e gusa) para o exterior, cujas cargas são levadas por composições de centenas de vagões puxadas por enormes e potentes conjuntos de locomotivas. Não sem alguma razão, seus habitantes, assim como provavelmente os das outras cidades do quadrilátero, resmungam contra o fato de seus recursos naturais estarem sendo subtraídos sem que eles vejam a cor do dinheiro ou sem que nada seja colocado no lugar das enormes crateras produzidas pelas escavações (quando muito, as siderúrgicas 'passam mel na boca dos habitantes', camuflando a situação com projetos ambientais nas áreas devastadas).
Cássio, carroceiro, mulato-escuro, quase negro, troncudo, rosto com acentuadas marcas como que de cansaço, baixo, cabelos estranhamente lisos, levemente anelados penteados para trás, um alto topete que costuma cair sobre a testa, lábios enormes, mangas da camisa dobradas de modo a exibir os músculos riscados por veias salientes, peito da camisa aberto, toma uma bebida destilada e, como tem se tornado recorrente, olha para a parte mais antiga da cidade, a rua estreita, logo ali na frente, a Rua das Três Bicas, que, em tempos passados, levava às antigas carvoarias, e pensa: seus antepassados, alguns dos quais ele nem havia conhecido, tinham passado por aquela rua estreita, que conduzia ao que restava de uma longínqua floresta nativa, conduzindo tropas de burros, no transporte de carvão. Seu pai mesmo – Zé do Burro –fora um destes tropeiros, e ele o tinha acompanhado no trabalho algumas vezes, antes que a profissão começasse a definhar (assim como seus parentes) até desaparecer por completo (pelo menos na região carvoeira). Eram recordações que ele não apreciava, mas não havia como evitar: o pulo da cama de madrugada (os galos nem ao menos haviam cantado ainda!), um café tomado às pressas (tempo era dinheiro: quanto mais carvão os tropeiros entregassem na siderúrgica, mais grana eles ganhavam, embora todos vivessem na mesma penúria), e a cavalgada até à carvoaria. Ali, todos tinham de colocar a mão na massa: tirar o carvão dos fornos, carregar, encher os balaios, amarrar sobre os lombos dos animais de modo que não caíssem, e vir tocando a tropa, os garotos ao lado dos animais, vigiando para que nenhum deles debandasse, um deles guiando a madrinha, que era a “responsável” pela direção do grupo de animais. Ao fim da jornada, descarregavam às pressas e regressavam para a mata: iam em busca de mais carvão. Pelo menos na volta, havia um alívio: todos podiam voltar montados nos animais que aceitavam montaria.
Se fosse perguntado a Turbino 'o que ele queria ser quando crescesse', ele responderia 'não sei'. Mas se a pergunta, ao contrário, fosse 'o que ele não queria ser', haveria uma resposta pronta: carroceiro; a profissão do pai, para ele, não existia. Seus antepassados haviam sido proprietários de tropas de burros, ele – o pai - herdara alguns animais (e agora possuía apenas um burro), e vivia daquilo: pequenos carretos, transportes insignificantes, quando havia algum, e muitas dificuldades (Turbino não desejava que o pai ao menos desconfiasse, mas, raramente ele passava ao lado do 'ponto' delimitado pela prefeitura para os carroceiros, principalmente ao sair da escola). Talvez por isso seu aborrecimento, o hábito de chegar em casa meio embriagado todas as noites, a irritação constante com a mulher. Vez por outra Turbino trocava idéias com Cascudinho (“cruzes, o menino mais sujo que eu já vi!”), seu vizinho, sua idade, cujo pai, muito honesto, também trabalhava com uma carroça e, para incrementar a renda, fazia pequenos comércios com aves e outros animais de pequeno porte: vendia galinhas, frangos e leitões (por isso o apelido João Galinha), e se assustava.
Este o dilema de Turbino: não era exatamente um beco sem saída (ele tinha a vida pela frente, podia se safar!); era uma encruzilhada - e ele tinha de tomar uma decisão, procurar um rumo. Até que, numa tarde, o destino, imprevisível, na pessoa de um moço extremamente educado e bem intencionado, 'batesse à sua porta'.
A visão da ermida, à distância, no fundo do vale, branca, enorme, como um vistoso condor de asas abertas, fazendo contraponto com os negros e altos contrafortes irregulares da serra do Espinhaço e com a densa e escura vegetação circundante, a torre da igreja gótica subindo, interminável, como o longuíssimo pescoço da ave, provoca a perplexidade das pessoas. “Quem era o Irmão Lourenço, o fundador do Caraça?”, “De onde veio?”, “Por que ele tinha esse nome?”, “De onde lhe veio o lampejo para erguer esta construção neste lugar?”, “De onde ele tirou este nome: Caraça?” - são algumas das perguntas que quase todos se fazem ao verem o santuário do Caraça pela primeira vez. Talvez a palavra mais adequada para se referir ao construtor da ermida seja: misterioso. É sabido que chegara de Portugal, fugindo do Marquês de Pombal (embora alguns historiadores afirmem que isso não é verdade). Seu nome era Carlos Mendonça de Távora, portanto, descendente de nobre família.
Turbino riu.
“Você está mesmo tramando alguma coisa?”
“Eu não! Tô tramando nada!”
“Quantos anos você tem?”
“Quatorze.”
“O que você pretende fazer da vida, moço?”
“Eu? Não sei ainda.”
“Você devia ir para o Caraça.”
“Caraça?! E o que eu vou fazer no meio daquelas montanhas?”
E Cássio, espicaçado pela lembrança de seus antepassados, aos molambos, correndo ao lado das tropas pelas ruas da cidade, em direção aos depósitos da siderúrgica, e incapaz de se desgarrar da lembrança das casinhas miseráveis no fim da rua, moradas de seus antepassados (“incrivelmente, ainda piores do que a minha!”), da ida de suas gerações anteriores em busca da água da bica, “a qualquer hora do dia ou da noite, no frio ou no sol, ou na chuva!”, tremendo de excitação, tomou o filho pelo braço, levou-o à rua estreita por onde os tropeiros haviam passado dirigindo os animais em direção às distantes carvoarias, e lhe mostrou as residências antigas.
“O seminário é o lugar dele, 'seu' padre! Meu filho tá desperdiçado nesta cidade. Nunca vi gostar de religião assim! Semana que vem mesmo ele disse que ia entrar na Congregação Mariana!”
A mãe perguntou: como vamos pagar pelo colégio, padre? Nós não temos condições!
O padre respondeu:
“A providência divina supre as necessidades do seminário, minha senhora. Não se preocupe!”
“Ah, que ótimo!”
À saída, o padre afirmou, sorrindo:
“Vai dar tudo certo! Eu tive uma impressão muito boa!”
Assim, para gáudio de Cássio, num princípio de fevereiro, manhãzinha, um caminhão (onde já estavam alguns alunos antigos e uns poucos novatos) apanhou Turbino em Barão de Cocais e, sacolejando, passou por São Bento, Brumal, Fazenda do Engenho, e subiu a estrada de terra e pedras da serra do Espinhaço, em direção ao santuário. Foi uma viagem da qual Turbino jamais iria se esquecer: ele não tinha como se alojar na boléia (havia duas pessoas junto com o motorista), e, na carroceria, ele tinha total visão da estrada, que era amedrontadora: estrada de terra, atulhada de cascalho; curvas e mais curvas e, circundando-a, montanhas, florestas fechadas, cachoeiras, penhascos e pedras enormes. Várias vezes ele fechou os olhos para espantar o receio de que o motorista perdesse a direção, ou de que os freios falhassem, e o veículo desaparecesse entre as ravinas e os penhascos escarpados.
Rodaram mais uns poucos quilômetros e o caminhão deixou Turbino e os outros alunos à porta da construção, a jóia do Irmão Lourenço de Nossa Senhora - a ermida do Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens ou, como os padres não se cansavam de dizer – o Imperial Colégio do Caraça. Mais tarde, ele se lembraria:
“Logo na chegada, antes mesmo de descermos da boléia do caminhão, alguém me apontou um prediozinho de dois andares, logo à entrada do prédio principal, e afirmou: chama-se Sobrado Afonso Pena. É uma homenagem a um dos grandes homens de Minas, da política mineira, que estudaram aqui. É a morada das irmãs da caridade que auxiliam no seminário. E aqui está – o sujeito apontou para o prédio maior ao lado -, em toda a sua grandeza, a construção de pedras enormes, quadradas, feita a dezenas e dezenas de anos atrás: a ermida do Caraça!”
Turbino simpatizou com o padre superior, com sua fisionomia tranqüila, seu rosto chupado, e com seu jeito manso de conversar. E o padre, talvez temeroso de que os novatos se amedrontassem excessivamente com o grau de exigência, explicou, pressuroso, que haveria vários suetos durante o período letivo, horas preciosas de descanso para que os alunos esfriassem as cabeças; ('ninguém ia ficar doido por estudar em excesso!'). Sabendo que estava falando grego, pois, ninguém sabia o que era sueto, ele esclareceu: sueto e folga das obrigações eram a mesma coisa. Aos domingos, às quartas-feiras após o almoço e também nas tardes de sábados, o tempo ficava livre para os apostólicos fazerem o que quisessem – desde que tudo estivesse dentro das normas, claro!
Turbino, muito tempo depois, ainda se recordaria: “Eu fiquei até com vontade de rir! Após o almoço, outro moço juntou os novatos (todos ainda crianças, menos ele, que já estava caminhando para os quinze anos!), e nos arrastou pelos corredores, apontando os quadros nas paredes, e dizendo: este é o Irmão Lourenço, o fundador do santuário, cuja vida e vinda para o Brasil são cercadas de mistérios. Aqui está o retrato de D. João VI, grande benfeitor da Congregação dos Padres Lazaristas (seus membros são conhecidos como padres e irmãos vicentinos ou lazaristas porque a primeira casa da Congregação, em Paris, se chamava Casa de São Lázaro), a quem doou a ermida e as matas do Caraça. D. João VI deve ser proclamado o primeiro e maior benfeitor, o mais ilustre e benemérito paraninfo do Caraça! E este é D. Pedro I, que visitou nosso santuário em 1831, e, mais tarde, cinqüenta anos depois, veio seu filho, D. Pedro II, que está neste outro quadro. Observem os traços suaves e precisos do pintor. Aprendam a enxergar as sutilezas de uma pintura! Isto faz parte de sua formação.” Turbino, mãos às costas, curioso, ia acompanhando.
“Eu... apreciando quadros!” Era isso: jamais Turbino se imaginaria olhando quadros em paredes! Mas, ali estava ele. E estava achando os troços interessantes e se sentindo importante!
Ao acabarem as andanças, Turbino deduziu que ele havia tomado seu primeiro banho de cultura e de arte – e que ele, imbuído do espírito caracense, teria, dali para a frente, de percorrer um caminho de santidade!
“Lembrem-se – ao término, o guia enfatizou– pisar no Caraça é pisar na história!”
Depois, a surpresa maior:
“Pra quem tava acostumado a ir às aulas quando queria, ou a ir pra fazer bagunça e brincar, ou pra quem não tinha hora pra estudar, foi um choque e tanto! Era estudo e aula o tempo todo... com hora marcada! E reza e orações! Muitas! Começava cedo! De madrugada, o padre chutava as portas dos dois dormitórios, acordando a turma! E, no decorrer do dia, ficava por conta do sino. O sino, pendurado numa trave no pátio do recreio, dava o sinal. Era tudo recheado com o mais completo silêncio!”
Você tá entrando no Caraça pra ser padre mesmo?”
“Eu tô.”
“Que beleza, moço! Meu nome é Dirceu e o seu?”
(Mais tarde, o novato veio a saber que o moço, devido aos formato de seu rosto, tinha o apelido de Goiabinha).
“Turbino.”
“Você tem os braços musculosos, menino! Você trabalhava em alguma coisa?”
Turbino, que apreciava ser considerado trabalhador, respondeu, orgulhoso:
“Trabalhava sim; de padeiro em Barão de Cocais.”
“Que legal! E você fazia pães?”
“Não, eu apenas ia à padaria, enchia um balaio de pão, e saía vendendo.”
“Moço trabalhador! E você vendia no centro da cidade mesmo?”
“Nunca no centro. O patrão me mandava vender nos bairros mais distantes, onde os padeiros mais velhos não gostavam de ir!”
“Ahhhh, mas covardia! Um rapazinho tão novo! – fez o Dirceu.
E, voltando-se para a turma, exclamou:
“Vejam, gente, tem mais um padeiro no Caraça! Agora chegou o Padirin de Barão!” (mais um porque o seminário tinha um padeiro, irmão leigo, que era morador da ermida).
Os outros alunos riram e o padre chegou. Ao fim da primeira aula, o seminário inteiro sabia que o novato tinha sido padeiro – e que se chamava Turbino e seu apelido, de agora em diante, seria Padirin de Barão.
Depois, um acontecimento que marcou Padirin profundamente: o dia em que ficou conhecendo o Irmão Nylo. Corpulento, semblante fechado, avermelhado, de meia-altura e meia-idade, voz guinchante, de ratinho quica, que, inexplicavelmente, costumava mudar de diapasão de repente, baixando ainda mais de tom, rosto enrugado (cara cheia de pelotas), barriga saliente, um indefectível casquete sem abas enfiado na cabeçorra, as pontas dos cabelos brancos despontando sob as abas, o Irmão Nylo, além de ser o especialista em pegar serpentes no seminário (e lá as havia aos milhares), perambulava por todos os cantos o dia inteiro e tinha orgulho máximo disso:
“Sou o mestre de cerimônias. Recebo os visitantes e cuido para que tudo corra bem nos domínios do Caraça! Tomo conta de tudo!”
Andando pelo morro do Calvário, Padirin deu de cara com o Irmão, que fuçava numa moita à procura de serpentes. Ao vê-lo, o moço, que estava debruçado sobre o mato, se levantou, encarou Padirin, e perguntou:
“Conheço todas as pessoas no Caraça, menos você.”
“Sou aluno do seminário.”
“Tá entrando no Caraça neste semestre, rapaz?”
“Eu tô. Sou novato.”
“De onde você é?”
“De Barão de Cocais.”
O Irmão Nylo fez um muxoxo, girou a madeira que usava para pegar cobras no ar (o próprio Irmão havia projetado o aparelho, um bastão com um gancho na extremidade, e uma extensão de arame que ele usava para apertar o pescoço das cobras), e afirmou:
“Hum! Barão de Cocais! Mais um pé-de-pomba! E os jovens daquela cidade só vêm aqui pra trazer problemas! Só fazer bagunça! Nunca saiu padre nenhum de Barão de Cocais... e mais de uma centena de rapazes de lá já foram alunos do Caraça durante o tempo em que eu tô aqui!”
E Padirin foi descobrindo mais coisas:
“Quando eu tava lá na cidade, muitas coisas existiam e eu nem sabia; nem notava. O luar, por exemplo. A lua, pra mim, era um naco de queijo pendurado no céu, que ia crescendo e ficava inteiro, redondinho, uma vez por mês e, depois, ia diminuindo e sumia; ela lá em cima, no céu, e eu aqui em baixo, na terra; nada, além disso (não era de todo verdade: a lua era, também, o farol que iluminava o caminho quando ele, de madrugada, às vezes acompanhado de colegas, às vezes sozinho, ia roubar frutas em sítios alheios, passando no meio do mato). Aqui, no Caraça, pertinho do céu, ela como que ocupa um espaço enorme, e parece estar muito próxima da gente. E delinea perfeitamente as curvas e os contornos dos montes. E se pode ver as cruzes e figuras do Calvário, o cercado do cemitério, e as árvores lá longe, no Campo da Urbis, no caminho da cara do gigante. Eu aprendi a enxergar a lua, a beleza da lua contra o céu azulado. Muitos alunos, nos horários do recreio noturno, ficam olhando pra lua, de nariz pra cima – em silêncio. Depois, quando a lua tá a pino, eles formam uma rodinha e alguém sempre puxa uma música – Peixe Vivo, Luar do Sertão ou outra, muito famosa: “Para mim/a chuva no telhado/é cantiga de ninado, mas o pobre meu irmão...” – e as vozes, algumas não tão boas, enchem o pátio.” E, nas noites sem lua, as estrelas parecem mais numerosas; a escuridão, com o ar rarefeito, sem poluição, faz com que elas fiquem mais visíveis, mais distintas – e tremeluzentes. Como vagalumes prateados. Muitos alunos ficam olhando pro céu, embevecidos. Ficam de nariz pra cima, em silêncio. Perdem até a fala. Eu aprendi a enxergar as estrelas também – e até a escuridão mais fechada ficou interessante pra mim! Fico de nariz pra cima, em silêncio – até sem fala.
(Outra lembrança que marcou Padirin foi a descida da neblina, de madrugada, sobre o Campo da Urbis, o descampado enorme, coberto de vegetação baixa e retorcida, que levava aos lados do morro do Inficcionado. “Eu tava sem sono e tive a idéia de me levantar e chegar à janela do dormitório. Alta madrugada, todo mundo dormindo [silêncio mais absoluto!], e a neblina cobria o campo. A névoa me lembrou uma multidão de fantasmas, alguns mais densos do que os outros, disformes, frios, brincando entre os arbustos. E alguns fantasmas subiam rastejando, vagarosos, as encostas, e outros corriam, céleres, e se escondiam entre as pedras negras, no enclave entre os picos da Bocaina e do Inficcionado, bem na Cara do Gigante.”)
DaMata (Padirin se lembrava), moreno quase preto, por volta dos vinte e cinco anos de idade, baixo, forte, lábios muito finos, cabelo pixaim rente ao couro cabeludo (sementinha de mamão), cabeça com um feio cocuruto traseiro apontando para o alto, carregava caixotes de mercadorias de um lado pro outro no armazém do Moreira durante todo o dia e, à tarde, subia, esfalfado, a estrada que levava ao morro da Lagoa, a caminho de casa. Para espairecer – como afirmava – sentava-se ao lado do campo e via os moleques correndo atrás da bola. Ficava lá sentado e contava casos, os assuntos variando em torno do mesmo tema: mulheres. E alguns garotos, já atazanados pelos hormônios ebulientes da pré-adolescência, sentavam-se ao seu lado e ouviam e riam e iam aprendendo algumas lições. Alguns colegas da parte baixa da cidade, passeando, também costumavam acompanhar DaMata em sua subida pra casa e riam com suas histórias. Como quando ele reclamava (o que era recorrente) pelo fato de o patrão dar chutes na bunda da filha mais velha, de dezenove anos. “Ah, meu Deus, a popa da Giselda! Aquilo não é bunda: é uma obra de arte! Cheia... e redondinha! E o filho da puta acha a filha insolente, respondona, e mete o pé direito sem dó! Se ele não suporta a moça, porque leva ela pra trabalhar no comércio, onde se vive trombando com gente chata?
Mas, antes de o ato se consumar, ele tinha vindo para o Caraça. Agora, estava ali - não mais Turbino, mas, Padirin -, sentado ao lado de outro moreno, este de tez não tão escura quanto DaMata, pele bem tratada, sem barba, palavreado articulado, arrumadinho, de batina, jovem mas quase sem cabelos, dentes grandes e muito brancos, que o olhava muito de perto, bem dentro dos olhos, por detrás de grossas lentes, a mão direita apoiada no espaldar da cadeira, como se tentando lhe adivinhar os pensamentos, ler a sua mente (uma das primeiras coisas que Turbino observou, ao entrar no seminário, foi que parecia que os padres estavam sempre tentando adivinhar os pensamentos dos alunos): o conselheiro espiritual do Caraça. O sino do pátio havia batido, avisando do fim do recreio, e ele fora chamado ao quarto do conselheiro espiritual. Qual colega o havia chamado? Fora o Nelito? O Rosivaldo? Padirin ficara tão apreensivo que nem se lembrava! Pra que o chamava? Ele conversa com todos os novatos que chegam ao seminário. O que ele fala? Um monte de coisas! O que ele quer saber? Você vai ter a resposta para suas perguntas já, já. Padirin, receoso, entrou no gabinete do moço, e o moreno, após cumprimentá-lo apertando sua mão e lhe pedir que ocupasse uma cadeira ao seu lado, declinou seu nome e, como se não soubesse, perguntou pelo do novato: Turbino; (“Por que seus colegas o chamam de Padirin? Ah... então, ele já sabia! [vendia pães em Barão de Cocais]”) e lhe disse (Turbino notou que o padre tentava deixá-lo à vontade) ser o diretor espiritual do seminário.
E Padirin aprendeu com o conselheiro espiritual do Caraça que ele devia evitar, a todo custo, a masturbação (isso ele sabia o que era, não sabia? Padirin ia dizer que não sabia, mas foi honesto: ele sabia, pois que ele não batia uma puneta de vez em quando?! ), que mina as forças dos jovens, provoca cansaço e sonolência, e, mais importante, é um pecado gravíssimo contra o Criador: “Toda vez que você ejacula em vão, meu rapaz, você joga fora uma vida em potencial! E você pode estar desperdiçando um ser humano de alto cabedal!” Cabedal?! Padirin, assustado com o palavreado elaborado do conselheiro espiritual da Imperial Ermida de Nossa Senhora Mãe dos Homens, deduziu que teria de arrumar um dicionário e lê-lo, se pretendesse trocar de idéias com os padres do santuário!
Antes de deixar o gabinete do moço, este perguntou a Turbino a respeito de sua família, a profissão do pai (carroceiro?!), da mãe (ela trabalha fora? Não; é do lar – dona de casa), se tinha irmãos; tinha sim; apenas uma irmã, de vinte anos. E o padre, que estava tendo contato com Turbino pela primeira vez, lembrou-o, mais uma vez, dos votos de castidade, da luta contra o desejo sexual (quando você estiver folheando uma revista, meu filho, se, por um acaso, aparecer uma foto de mulher ou de mulheres em poses provocantes, indecentes, não olhe! Passe rápido as páginas ou se desfaça da revista! E, ao caminhar pelas ruas no mundo 'lá fora', ao passar por mulheres vestidas de roupas impróprias, saias curtas, blusas diminutas ou decotadas, abaixe a cabeça, vire o rosto para o outro lado: faça de conta que não vê!), e lhe ensinou algumas jaculatórias para serem ditas nos momentos de tormenta, e que ele lesse uma carta de São Paulo Apóstolo, na qual este afirmava que as tentações da carne são como que um espinho que o cristão tem de suportar, em sua busca da perfeição espiritual, da virtude. Em seguida, abriu uma gaveta, retirou um embrulho, uma caixa, de dentro, tirou umas balas de caramelo, e estendeu a Padirin:
“Tome; é para ajudar a adoçar seus primeiros dias no Caraça!”
Padirin riu, agradeceu, e deixou o gabinete. E foi chupando uma balinha e dizendo baixinho algumas jaculatórias que havia aprendido com o padre do Caraça, o diretor espiritual do santuário:
“Oh, Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!”
“Nossa Senhora Mãe dos Homens, tende piedade de nós!”
“São José, rogai por nós!”
“Mas houve um ex-aluno que se emocionou, - não chorou, é verdade -, mas encheu o saco – e como!” A turma ficou muito irritada com o velhote e Padirin, em particular, tanto, que nunca mais se lembraria de seu nome. “Ex-aluno muito antigo, era professor de línguas, fizera muito pela educação, fundara colégios, sendo diretor de um - ficamos sabendo. Uma pessoa importante, uma das muitas que sempre apareciam para visitar o Caraça! Veio matar as saudades; demos azar, nós, os alunos, porque veio numa manhã de domingo, quando, após a missa, costumávamos nos preparar para os passeios ou jogos da tarde (os jogadores de futebol engraxavam suas chuteiras, os do pingue-pongue envernizavam suas raquetes, os das caminhadas preparavam suas vestimentas e calçados apropriados, etc.), e, neste domingo, antes mesmo do almoço, fomos avisados de que haveria uma palestra inesperada, um visitante ilustre desejava dizer algumas palavras, e tinha de ser naquela tarde – logo após o almoço -, porque, na manhã seguinte, ele tinha compromissos na capital e não poderia se demorar no santuário. De modo que haveria mudanças: nada de passeios ou jogos. Ficamos raivosos, depois, consideramos que talvez o visitante dissesse apenas algumas palavras rápidas e nossa tarde não ficasse completamente perdida. Não foi o que aconteceu:
Você sabe o que de fato você veio fazer aqui, Padirin? - o anjo de Turbino perguntou, com caras de poucos amigos. Sei; vim estudar e aprender o máximo possível. Então, dê um jeito! Suas notas não demonstram quase nenhuma atividade intelectual na sua rotina. Você nem joga bola, porque não tira notas melhores? E nem discute futebol! (Eram dois empecilhos que travavam o desenvolvimento de alguns alunos: futebol e discussões a respeito de futebol) Não sei se você sabe: os padres vigiam o comportamento dos alunos o tempo todo (não só os padres: alunos vigiavam alunos também! E os umbigueiros?!). E, dependendo de suas ações, eles lhe pedem pra ir embora. E, se você disser que não quer ir, que está gostando de ficar, eles exigem que o faça: eles o mandam embora. Colocam no carro e mandam entregar em casa. Você sabe disso.
Três semanas após a ida de Turbino, uma surpresa: num domingo, de manhã, Cássio subiu a serra. Foi em um ônibus de excursão e foi sem a esposa, que não se sentia confortável com igrejas ou religiões ou perto de padres. Foi conhecer o seminário e aproveitar para agradecer aos padres a aceitação do filho no colégio e, por sorte, dera de cara com o padre superior no adro da igreja. Cássio apresentou-se para ele, e o superior pediu que alguém chamasse o aluno, Turbino, e Cássio, embevecido, disse que ele não tinha palavras para agradecer a graça de seu único filho poder 'usufrutar' de tão gratificante oportunidade (meus amigos 'stão impressionados, “seu” padre. Um filho meu no Caraça! E, se ele for ordenado padre, então, vai ser a glória!)
Ouvindo o Irmão responder aquilo até com certa rispidez, o novato atentou para o fato de ele o estar sempre olhando com curiosidade nos horários de recreio e, mais de uma vez, o haver chamado de 'colegial', o que era um sinal de descaso, que denotava que o falante não acreditava na vocação sacerdotal do ouvinte. E o rapazinho deduziu: o Irmão Nylo não gostava dele e ele não atinava com a razão! E Padirin, que achava o Irmão um tanto bronco para ser responsável por alguma coisa (visto que o gorducho se intitulava 'mestre de cerimônias/guardião do santuário'), e também não o tinha em alto conceito, decidiu, mesmo assim, apelar pelos ensinamentos do seminário e tentar ser cortês com o Irmão e ganhar sua amizade.
O padre se sentava numa cadeira sobre um estrado elevado (o púlpito) e ensinava a matéria e pedia os “pontos”. E nunca deixava de dar deveres para “depois” – mas, “depois” o mais rápido possível. E muita redação. Redação?! Padirin era um dos poucos que não estavam dando conta dos “pontos”; era muita coisa, muita novidade, assuntos dos quais ele nunca tinha ouvido falar (quem diria que um dia eu ia aprender latim?! E pra que teria de aprender latim?!) E música?! Músicas, para ele, sempre tinham sido aquelas oriundas dos rádios; sanfona, viola, forró. Música para mexer o esqueleto; para se ouvir e gostar ou não gostar. Pautas (colcheia, semi-colcheia, mínima, semínima, escalas melódicas, harmônicas... credo!) e instrumentos não lhe diziam respeito e ele sabia que, se algum dia fosse chamado pra fazer parte da banda do colégio (ele sabia que isso jamais ia acontecer) seria taxativo em responder – não quero! Além das disciplinas, havia a participação obrigatória no grêmio literário: ele já fora avisado que precisaria fazer parte do grêmio literário pra aprender a escrever, desenvolver a escrita, a falar em público, senão, como ele ia se arrumar quando de tornasse padre?! E teria de escrever seus próprios discursos. E ainda teria de entrar no clube de inglês, que se reunia na hora do recreio noturno! Afinal, ele não podia se esquecer, ele era um aluno do Caraça e uma das razões da fama da casa era a facilidade com que seus ex-alunos lidavam com as palavras! “Apenas de ver um texto, já se nota que foi escrito por um aluno ou ex-aluno do Caraça! – alguns padres diziam, orgulhosos.”
Uma das restrições mais esdrúxulas do Caraça, até o princípio do século vinte, era a proibição da troca mesmo de olhares entre membros de salões diferentes. Os padres, os regentes, pensavam que havia a possibilidade de os alunos começarem a 'namorar'. Por isso, um fato estranho aconteceu ao novato: “Não entendi: eu era um 'pequeno', significando que era um aluno das séries básicas e estudava as matérias do princípio do curso, e que os 'grandes', os alunos do curso clássico, que estavam em vias de se mandar para o seminário maior (Petrópolis ou Mariana), tinham pouco a ver comigo, a não ser os cumprimentos de praxe e algumas brincadeiras, o que não eram muitos deles que o faziam (ademais, os 'grandes' eram em pequeno número). Estavam quase sempre juntos; podiam inclusive freqüentar a biblioteca, que era o xodó dos padres, envolvidos pela Apologética, pela Oratória, e pelas disciplinas de línguas. Como estavam indo embora, era necessário que estivessem afiados porque, como era buzinado em nossos ouvidos diuturnamente, onde fossemos, seja como padres ou leigos, estaríamos levando o nome do Caraça e, éramos responsáveis por demonstrar a excelência do ensino que tínhamos recebido e a retidão de nosso comportamento, que fizeram a glória e a grandeza da ermida de Nossa Senhora Mãe dos Homens, através dos tempos. E eles, 'os grandes', por terem ido tão longe, tinham uma responsabilidade ainda maior (como o Irmão Nylo afirmara a respeito dos ex-alunos de Barão de Cocais, muitos que terminavam o curso clássico, ao invés de irem para o seminário maior, davam no pé: iam pra casa, pra suas cidades, ou pra outras cidades, ser engenheiros, médicos, professores, ou exercer outras profissões respeitáveis). Respeitávamos os grandes em seu encapsulamento e, se não nos dirigissem a palavra, raramente eram perturbados.
Por isso, estranhei a noite em que um deles veio em minha direção, no recreio.
“Vamos ali para o meio do pátio, rapazinho; vamos nos conhecer melhor.”
As notícias trazidas pelas cartas de Turbino estavam intrigando Cássio. Até então ele achava que as pessoas 'mais humildes' não necessitavam aprender aquelas frescuras de gente boa, de mais alto nível: as regras de boas maneiras. Os amigos dele, por exemplo: quando davam para rir, era rir mesmo, desbragadamente, sem miséria, estivessem onde estivessem (Cássio não era dado a estes arroubos; ria, mas, com moderação). E falavam em voz alta e não se importavam se alguém estava se sentindo importunado com seus rompantes. E, ao encontrar conhecidos, davam-lhes tapas nas costas e faziam chacotas, muitas vezes ofensivas e maldosas. E comiam de boca aberta, usando colheres!, e chupavam os cacos de dentes (como um emblema – mais um! - dos colegas, inclusive seu, todos eles exibiam apenas cacos de dentes na boca e alguns deles não exibiam dente algum!) E, ao finalizar o almoço, punham a marmita em algum lugar e se viravam de bruços e tiravam um cochilo. Nada de escovar ao menos os pedaços de dentes, ao menos para despistar! E o banho?!
Naquela clara manhã de domingo, a grande maioria dos alunos se lambuzava de sol, alguns jogando bola, outros aglomerados no adro da igreja gótica ou sentados na velha escadaria ainda do tempo do Irmão Lourenço, outros apenas aglomerados sob as velhas palmeiras imperiais, no pátio frontal à construção. Padirin, ensimesmado, decidiu dar um passeio e saiu andando; desceu a ladeira, parou rapidamente ao lado da efígie imperial onde o imperador havia desabado, passou pela casa das Sampaias, e caminhou lentamente em direção à estrada que circundava o sopé do morro do Calvário, e levava à entrada lateral do colégio. No término do calçamento de pedras, ao pé da ladeira, observou o que restava da ornamentação, feita, havia poucos dias, pelos alunos, do tapete para a procissão da Páscoa da Ressurreição. Os ramos de cipreste, perfumados, assim como as flores secas e os galhos e as folhas de outras árvores, a areia e a serragem coloridas, ainda estavam no chão.
“Foi uma glória pra minha família, gente; uma coisa muito boa. Só de ele ter esta oportunidade, já mudou o astral de minha esposa. Eu, por mim, tô lá no céu! Quando olho pra essas casas velhas, ou quando ando por estas ruas antigas, as casas de pau-a-pique – conservadas (porque reformadas pelo Patrimônio Histórico), mas de pau-a-pique -, ou vejo aquela bica ali na frente, recordo meus antepassados, tropeiros, uns na frente e outros atrás da tropa, até crianças aprendendo o ofício com os pais, andando essas distâncias enormes, eles morando nessas casinhas fuleiras de fim de rua, buscando água na bica, e, agora, meu filho no Caraça... se ele estivesse estudando em um colégio de verdade, já era motivo de comemoração, mas, no Caraça - é motivo de júbilo! Pela primeira vez em minha vida, eu vejo minha família andando pra frente! Com Turbino, a gente tá começando a andar por caminhos diferentes!”
Mas eles estavam se sentindo bem com a felicidade do amigo, e Cássio ia tomando umas bebidas e se sentindo cada vez melhor. E já estava pensando em ir embora, ligeiramente embriagado, quando Ivonete, sua filha única, chegou o nariz na porta e lhe fez um sinal: ela precisava falar com ele. Parecia ser assunto importante. Cássio saiu do boteco e Ivonete lhe disse que era preciso que ele fosse em casa. Que ele fosse conversar com Turbino, porque ele chegara ainda a pouco do Caraça.
“Uai! Chegô do Caraça?! Mais ele ainda num tá nas férias dele ainda!”
E foi pra casa.
Turbino tinha garrichado. O carro do seminário o havia trazido à tardinha, o deixara à porta de casa, com sua mãe, mas ele fora para a rua e ficara dando voltas pela cidade, revendo lugares, conversando com amigos (já tinha ido, inclusive, à Lagoa), e chegara à casa apenas à noite - só com a roupa do corpo! (suas roupas seriam entregues dias depois, após serem coletadas e lavadas na lavanderia do seminário, como era o costume com os alunos dispensados).
E, vendo Turbino nas ruas, e sabedoras de que sua aventura no Caraça havia chegado a um fim prematuro, e sabendo do esboroamento dos sonhos de Cássio, as pessoas, condoídas (algumas nem tanto), passaram a chamar o carroceiro com mais freqüência para fazer carretos, de modo a aliviar sua frustração. Era a esmola, que ele tanto desejava evitar.
Nas tardes do Caraça, como já foi dito, em dias de semana, os alunos estavam nas salas de aulas e os pátios, a não ser nas horas de recreio, ficavam sempre vazios e, mesmo às quartas-feiras, quando, por ser sueto após o almoço, não havia estudo ou aulas, e era facultado aos alunos escolher a ocupação preferida: passear nos arredores do colégio, ir nadar no Banho do Imperador ou na piscina construída por antigos alunos (um enorme buraco retangular escavado na argila, logo após a Bela Vista), ou jogar futebol na Varginha (a diversão predileta da maioria), havia apenas silêncio nas grandes áreas internas e no pátio frontal ao prédio. Evidentemente, se alguém preferisse estudar ou ouvir música, ou mesmo praticar algum instrumento, seria permitido, mas tal fato era raro. O certo é que o modo de preenchimento dos horários, do momento logo após o almoço até à tardinha, quando a folga chegava ao fim, ficava por conta do aluno – desde que o padre disciplinário concordasse, claro!
A melhor coisa que lhe pôde acontecer, a ele e à sua família, foi sua vinda para o Caraça. “Foi o Eriberto que o convenceu a ser padre. Eriberto – um preto de alma branca, 'seu' padre! Gente muito boa!” O estudo do Caraça era outra coisa, a disciplina também, e o seminário tinha tradição de austeridade e era famoso por formar grandes homens. Todos sabiam que sem estudo, bom estudo, nada se arruma, as coisas ficam muito mais difíceis, senão impossíveis.
“O Caraça é mais de meio caminho andado, 'seu' padre! Muito bão mesmo! O negócio de Turbino é ficá no Caraça mesmo!”
“Nós obedecemos a um código de ética, a um manual de conduta moral e espiritual, que foi estabelecido há um século e meio, meu senhor. Um dos mais antigos padres do Caraça, o padre Leandro Rebello Peixoto e Castro, de Portugal, seu primeiro superior, (um santo!), traçou este código em 1835, e nós o seguimos com fidelidade até hoje. Um século e meio são cento e cinqüenta anos! E não temos porque nem como sair fora dele! Nós seguimos uma tradição, somos seus guardiães! E é esta tradição que fez e faz a fama deste educandário. Ao adentrar o Caraça, todos os alunos são alertados para o fato de que 'se num cesto de laranjas sadias houver uma só laranja podre, ela deve ser imediatamente extirpada para que não contamine as outras!' Entre outras atribuições, os alunos devem se persuadir de que não vêm apenas para aprender os estudos, mas, também, as virtudes. Devem respeitar-se mutuamente, evitando inimizades, e os estudantes devem ser muito políticos, educados, no trato com seus semelhantes. E seu filho não estava se guiando por estas normas.”
Parando de falar, o padre disciplinário como que deu um tempo para que Cássio digerisse o que estava sendo exposto, e ver se ele diria alguma coisa, mas, não; ele permaneceu em silêncio.
“Mais o qui meu filho fez de tão grave pra ser dispensado tão cedo e chegar em Barão de Cocais só com a roupa do corpo... e muito antes das férias começá?”
“Mas ele não disse para o senhor?”
“Não!”
“Seu filho praticou um ato libidinoso, 'seu' Cássio!”
Sem compreender, Cássio fitou os padres por uns instantes. Perguntou:
“Li... o quê?”
O padre disciplinário explicou:
“Libidinoso. Um ato indecente!”
“Como indecente?”
“Na última quarta-feira, dia que é folga de estudos após o almoço, sueto, como os alunos comumente dizem, ele foi brincar na água com um colega bem mais novo, no Banho do Imperador, e passou a mão na bunda e nas coxas do menino... e queria ir mais além! Queria fazer mais coisas!”
Cássio, ligeiramente desconcertado, indagou:
“É mesmo?”
“É!”
“Uai!”
“E então, 'seu' Cássio?”
“Bão...”
E Cássio, como se fazendo um enorme esforço para encontrar alguma justificativa para o ato libidinoso do filho, calou-se e olhou nos morros em volta: pedras; liquens e mato; florestas; flores, árvores, palmeiras...
“Bão o quê?”
O carroceiro, perturbado pelo fato de seu filho haver praticado uma ação tão negativa, mirou nos rostos dos padres e do Irmão, e, por fim, encolhendo os ombros, disse:
“Bão, intão, se ele fez isso mesmo é porque ele aprendeu com oceis!”
Os homens se admiraram:
“Aprendeu conosco?! Não entendemos! Como assim, meu senhor?”
E o carroceiro foi desfiando impropérios, afirmando que “todo mundo fala que os padre dão nitro pros seminarista pro pau deles num subi e pra um num ficá com vontade de cumê o rabo do outro e é verdade mesmo purque o sujeito qui chupa o pau dos moço quando a muié deli viaja num tem tesão e um dos moço qui vai lá falou comigo qui o sujeito fica mamano e o piru dele nem tchum: fica murcho, de cabeça pra baixo o tempo todo! E o povo tamém fala que os padre senta os minino no colo pra dá aula de piano pra eles e fica passano as mão na bunda e nas coxa deles e ainda fica ameaçano os coitado com o fogo do inferno!”
Os padres, leitores de Karl Marx, contendores do comunismo, e sabedores das nefastas conseqüências da não satisfação do 'furor do interesse pessoal', não retrucaram às ofensas do mulato, e este continuou:
Sem conseguir se conter, o Irmão Nylo apontou o pau de pegar cobras para o carroceiro e gritou:
“PRETO!”
Ao que Cássio, deixando-se levar pelas brincadeiras sem graça do filho, respondeu, aos gritos:
“NAMORADO DO GEREBA!”
E o Irmão Nylo empregou, outra vez, o seu francês:
“VOUS ÊTES UN CHEVAL!”
E Cássio, ainda mais irritado com aquelas conversas de poesia, as mangas curtas da camisa dobradas exibindo os grossos músculos do antebraço, as veias salientes, os lábios enormes ainda tremendo de ira, parou, virou-se, e deu uma última olhada furiosa para os rostos dos padres, que o observavam e, ao se virar para retomar a descida, tropeçou nas próprias pernas, e se estatelou de bunda nas gastas pedras da ladeira.
“Veja, - disse o padre superior apontando para o chão próximo a ele (como se não tivesse levado a sério as diatribes do carroceiro, desconsiderando suas palavras extremamente ofensivas, e deixando-se levar pelo mais elevado mandamento do Salvador: perdoar sempre; perdoar setenta vezes sete!) – você caiu sentado bem ao lado de onde Sua Alteza lmperial, D. Pedro II, desabou no século dezenove. Esta coroa que você vê aí gravada é relacionada com este fato. Se você não fosse tão agressivo, tão petulante, tão desbocado, nossa congregação poderia gravar nestas pedras uma homenagem ao carroceiro que conseguiu matricular seu filho no Caraça e, do mesmo modo que o imperador, você passaria a fazer parte indelével da história da nossa instituição!”
“O filho, se não for padeiro, vendedor de pão, exercerá um profissão baixa: será um barbeiro, ou um sapateiro, ou um operário da construção civil... e de má qualidade. E, se porventura não vier a ser nada disso, certamente terminará seus dias encarcerado!”
“Provavelmente... se Deus não entrar no meio.”
“Mas, talvez (quem sabe?), há pessoas até hoje procurando pela grana do Barão de Cocais e pode ser que ele seja um dos seus herdeiros; caso um dia a fortuna seja de fato encontrada, parte dela ainda chegue à suas mãos e sua família fique em uma boa situação e Padirin chegue mesmo a estudar em um bom colégio!”
“É verdade, meu padre; quem sabe?”
E os padres dão outra gargalhada.
Vendo que Cássio desaparecia na curva lá em baixo, perto da ponte, os padres, mãos enfiadas nos fundos bolsos das batinas, voltaram-se e, cabeças baixas, caminharam, lenta e compassadamente, em direção aos seus aposentos. O irmão Nylo, irado, ainda vermelho, de pé no adro frontal à igreja gótica, arrependido por não haver, por sua conta e risco, dado “uma correção” no atrevido carroceiro, alisava nervosamente o pau de pegar cobras e tentava compreender porque os padres haviam permitido que o preto os destratasse daquele modo. Depois, por sua vez, pôs-se a andar; ia curar sua raiva no caramanchão do outeiro do Calvário.
“Pega fogo! Isso mesmo! É tudo material mais do que ressecado, compadre! Afinal de contas, são duzentos anos! Duzentos! E alguns dos livros da biblioteca têm mais de quinhentos anos. São livros que vieram da Europa, trazidos pelos primeiros padres da Congregação da Missão, que vieram do estrangeiro, da França, pra lecionar no Caraça e os doaram ao seminário!”
Desencostando-se do carro, Cássio deu um sorriso malicioso e começou a dizer:
“Ora, cumpadre, se pega fogo à-toa, eu...”
E parou.
Leandro, intrigado, indagou:
“Você não tá pensando em fazer isso, está, compadre?”
Cássio olhou demoradamente para a construção ao longe, pensativo, e respondeu:
“Se pega fogo à-toa, eu acho que nós vai vortá aqui mais uma vez ainda, compadre!”
..... ..... ..... ..... .....
Vinte e oito de maio de 1968. Quase três horas da madrugada. A lua está alta sobre a Serra do Espinhaço e, lá no cimo das montanhas, no vale onde se situa o santuário do Caraça, quase nada se ouve. Como se respeitando os séculos de história e as enormes tradições do colégio, a natureza queda estática, quase muda: os padres estão repousando (eles necessitam de repouso, de silêncio, pois se levantam antes de todos), os alunos dormem, porque, como sempre foi sabido, no Caraça, embora houvesse folguedos, o estudo era obrigação tão importante quanto as orações e os alunos ficavam exaustos. Os funcionários, irmãos leigos e os empregados, não vão demorar também a ficar de pé. Há sempre muita coisa para se fazer e o semestre letivo está ainda em sua metade. Há um grande caminho a ser percorrido. Talvez já haja, na casa das Sampaias, algum movimento, porque todas as habitantes da casa ao pé da íngreme subida que dá acesso ao portão frontal do colégio se sentem na obrigação, como elas afirmam, de servir a Deus diuturnamente, porque “a mil chegarás e de dois mil não passarás!”, e “grande é o Seu poder e infinita Sua misericórdia”, e elas querem fazer por merecer um lugar na “Jerusalém Celeste”; não há, porém, movimento externo na casa. Grilos cricrilam num tom baixo, e mesmo as cigarras apenas se arriscam a ciciar, certamente inspiradas pelo ambiente poético. Tostada pelo calor do dia e da noite, a vegetação exala forte e variado perfume, que provoca leve comichão no nariz. Nuvens pequenas navegam no céu de um azul profundo, onde estrelas quase difusas tentam cintilar, lutando contra a forte luz do luar. Sobre os morros do Inficionado e da Carapuça, o excessivo brilho lunar provoca fortes e marchetadas manchas escuras: são as reentrâncias das rochas que a luz não pode alcançar.
O que carroceiro viu ao se aproximar da janela o deixou perplexo: não era para ser verdade! um fogareiro elétrico sobre uma mesa – bem junto da janela - e ligado!; ao lado de dezenas de livros raríssimos, antigos, alguns seculares; material altamente inflamável – e de madrugada! Impossível!
Ao chegarem à Curva da Saudade, pararam e olharam. Lá estava: na manhã muito clara e bonita, como são as manhãs de sol no Caraça (céu azul, algumas nuvens alvas, as montanhas negras brilhando belamente), uma visão aterradora: como um monumento bombardeado por uma aviação perversa, uma Dresden cultural moribunda, um Titanic divino mergulhando nas profundezas de um mar desconhecido, as ruínas centenárias do Caraça fumegando no fim do mês de maio: vinte e oito de maio, mil novecentos e sessenta e oito. Esta data, infelizmente, tornou-se, como tudo o que se refere ao Caraça, celeiro de mentes e homens brilhantes, também, histórica. Atrás do colégio fumegante, os negros contrafortes de pedra – o Pico da Carapuça, a Cara do Gigante, o Inficcionado, o Pico do Sol - as montanhas da Serra do Espinhaço, que haviam, há tempos e tempos, cativado o Irmão Lourenço de Nossa Senhora e, pelos anos seguintes, atraído a atenção de imperadores, presidentes, governadores, intelectuais e cientistas nacionais e estrangeiros e demais figuras influentes, se exibiam, imponentes.
O Caraça ia comemorar século e meio de existência em 1970 e o programa de festividades já estava sendo elaborado pelos padres lazaristas. Ao invés de comemorações, na manhã de 28 de maio de 1968, após a última refeição, um padre disse:
“O colégio acabou. Vocês peguem o que sobrou de seus pertences e voltem pra casa.”
Os alunos se levantaram e, de frente para o quadro da Ceia de Ataíde (que, à época do incêndio, ficava no refeitório, tendo sido, após minuciosa restauração, transferido para a igreja gótica), rezaram a última oração, como faziam havia 147 anos. Havia lágrimas e soluços. Depois, deixaram o refeitório.
O colégio ficou dezessete anos quase abandonado, mas não esquecido. O seminário fechou as portas, mas, ao contrário do que sugere o sub-título do livro, o Caraça não morreu; longe disso ('os rochedos não morrem!')! Não havia como; apenas hibernou: em março de 1975, o governador do estado e outras autoridades subiram a serra. Foram inaugurar a estrada asfaltada, patrocinada pelo estado, aspiração dos padres desde a época do incêndio, que substituiria a antiga, de terra. O Caraça não mais funcionaria como colégio; apenas como centro de irradiação espiritual, local de retiros e meditações (que era o desejo primeiro do fundador, Irmão Lourenço de Nossa Senhora), além de local de peregrinação, recolhimento, e de altos estudos culturais, vocação esta que, desde há muito, estava imbricada na vida do estado de Minas Gerais e do país.
E Cássio? Extremamente contrariado (permanecera junto ao seu 'canguiço', mas havia enviuvado), continuou a ocupar o mesmo canto do balcão (agora sem o tambor de querosene) para tomar uns tragos e ruminar suas tristezas e seus ressentimentos, após fazer seus carretos eventuais, onde, aborrecido, veio a saber da recuperação do Caraça, não mais como colégio, mas, como casa de repouso, de meditação, de recolhimento, de oração. Ficou sabendo que o governo do estado asfaltara a estrada, o que facilitava a subida ao santuário, e que inúmeras caravanas subiam a serra – gentes até do exterior! -, pra admirar as belezas da natureza, caminhar nas trilhas, nadar nas cachoeiras, e rezar na ermida, ou mesmo realizar casamentos e festividades na igreja gótica.
O que Cássio não sabia, ou fingia não notar, era que Leandro havia sido afetado pelo incêndio de um modo diferente: torturado pelo remorso, ele, que se considerava um fracassado, entregou-se ao misticismo (nas madrugadas, ao se dirigir para casa, lembrava-se, contrariado, de que os alunos do Caraça estariam, numa hora daquelas, preparando-se para os estudos e as orações – se ele não tivesse contribuído para o fim do seminário levando seu compadre até à porta da ermida e atiçado sua ira ao descrever a biblioteca, e que, também por sua causa, grandes homens, grandes sacerdotes, deixariam de se formar em terras mineiras e o país muito tinha a perder com isso), converteu-se, e ele, antes tão descrente das coisas do Alto, vendeu seu carro velho, doou o dinheiro aos vicentinos, comprou uma bíblia que carregava diuturnamente sob o braço, passou a usar camisetas estampadas com motivos religiosos, pendurou um crucifixo e uma medalha com a imagem da Virgem Santíssima no pescoço, passou a ir à missa todos os dias da semana, a rezar o terço, tornou-se membro de um grupo de oração, e, ao se aproximar dos fregueses de jogo, erguia o dedo indicador da mão direita (ar sacerdotal, olhos vidrados), e dizia: “Buscai o Senhor, enquanto se pode achar!”, “Vigiai e orai, pois não sabeis o dia nem a hora!”, “O Senhor é meu pastor, nada me faltará!”
Quanto a Turbino, o Padirin de Barão, atingiu a maioridade em Barão de Cocais, mas não foi longe nos estudos. Tentou estudar, mas, não conseguiu (desisto; não tenho cabeça pra essas coisas!), e ainda teve o desgosto de saber que Tânia, a filha da Benza-a-Deus, se amasiara com o mulato DaMata. Não foi carroceiro como o pai e também não voltou a trabalhar na padaria. Ficou flanando pela cidade durante alguns poucos anos, depois, foi pra São Paulo e nunca mais retornou à sua terra natal (à época da morte dos pais, havia muito que partira). Ao contrário do que o padre superior presumira, não foi encarcerado; é um cidadão de bem. Embora não tivesse sido bom aluno no pouquíssimo tempo que ficou no Caraça, o germe dos ensinamentos dos padres estava incutido nele; a semente germinou e ele manteve as regras básicas de comportamento do seminário: pontualidade, obediência, disciplina.
E, embora não tenha sido testemunha ocular, costuma relatar sobre o incêndio pavoroso que destruiu aquele monumento cultural e religioso de Minas Gerais e do Brasil. Dos lamentos que foram ouvidos em todas as partes do mundo; das reclamações com a falta de atenção com a preservação do patrimônio histórico. “A biblioteca era muito seca e foi pro brejo. Incendiou-se rapidinho!”
A palavra que Turbino mais gosta de usar é 'incunábulo'. Dizem que, ao conversar com seus colegas operários e usar o termo 'incunábulo' ('Todos os incunábulos pegaram fogo, cara! Todos!'), eles perguntam, curiosos:
“Cu de quê?”
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