sábado, 3 de março de 2012

NOITE DE POEMA (do livro de contos "NOITES SEM FIM" [ainda não publicado])

NOITE DE POEMA

(do livro de contos “Noites Sem Fim”)

[ainda não publicado]

“Ah, mas que...!”

Era a expressão, raivosa, mais comum de Frederico (Fred), raramente deixada de vir acompanhada de um palavrão: “Ah, mas que saco!”, “Ah, mas que porra!”, “Ah, mas que merda!”, “Ah, mas que boceta!” Coisas do tipo. Era assim. Mas agora, com o carro estacionado no alto do promontório, onde a rodovia principiava uma perigosa descida por entre as montanhas envoltas na neblina, na madrugada, rumo ao fundo do vale, a lua muito alta e cheia, o silêncio, os picos dos morros furando, escuros, a espuma irregular que descera sobre todo o enorme vale, ele, talvez pela primeira vez, se deixara levar pela beleza do cenário noturno, ou, do mesmo modo, pela primeira vez enxergando beleza em alguma coisa, ele, tão cético, tão descrente de tudo do que ele não pudesse tirar algum tipo de vantagem, algum proveito, escorara o braço esquerdo na janela do carro, apoiara o queixo na mão, e mirava a noite, o pulso da mão direita apoiado com displicência sobre o volante.

“Ah, mas que coisa, “seu”! Não é que, se você prestar atenção, pode enxergar imagens bonitas nesses troços mesmo?!”

Sentado atrás do banco do carona, sentindo o bafo quente (cerveja e uísque) e o cheiro acre de um certo tipo de vegetal (maconha) provenientes dos outros ocupantes do carro, e olhando para a nuca do dono do veículo, que ocupava o banco da frente, José Carlos tinha outros pensamentos - e não era na beleza da noite em que ele pensava. Ainda há pouco, aboletados em volta da mesa do bar do motel na beira do asfalto, ali mesmo, a poucas centenas de metros atrás, os rapazes, quatro, enquanto bebiam à custa do poeta, o dono do carro, o ouviam, entre indiferentes e curiosos, discorrer sobre o “fazer poético”, e dizer que “como já disse um poeta: ٰlutar com as palavras é a luta mais vã, mas, mesmo assim,- e talvez por causa disso -, eu amiúde luto”′, e riram ao ouvi-lo afirmar que as noites enluaradas eram propícias à feitura de poemas, e que eles, nessa noite ¨banhada pela luz diáfana do luar¨, fariam um “belo poema” juntos. E ele, moreno-claro, magro, rosto afilado, nariz pequeno, cabelos pretos rasteiros levemente ondulados penteados para trás, acentuadas entradas laterais, voz dócil (mas não servil), sorriso meigo nos lábios muito finos, óculos de delgados aros dourados, brincou:

“Caso eu venha a publicar o poema e ganhar algum direito autoral, alguma grana, ninguém será esquecido: todos vocês, meus colegas, serão recompensados!” E riu: “He! He!”

Mas ele tentara mudar – ou presumia ter tentado. Os rapazes gostavam de relembrar de como o moço, sentindo-se perdido, passara, num lampejo de lucidez e autocrítica, a freqüentar um órgão assistencial de apoio a alcoólatras e drogados. “Era internato, tempo integral. Lá eu trabalhava desde cedo, - ele dizia, raras vezes (Robledo evitava falar no assunto), constrangido (fora uma batalha perdida, mas bem que gostaria de tê-la ganho; e se aborrecia com isso) dormia cedo e me levantava cedo. Eu e todos os moradores da casa. A gente tinha uma penca de atividades produtivas pra desempenhar. Horta, lavanderia, cozinha, essas coisas. E, à noite, leitura, pra quem gostasse, televisão ou jogo de cartas. E não era preciso pagar nada – mas era preciso seguir as normas da casa. Enquanto me aceitaram, fui ficando. Até que meu saco estourou; mas, aí, eu até já estava me achando recuperado. Tinha certeza disso! Fui atrás do chefe da casa e falei: “acho que posso sair. Tô sarado!” Tinham sido quatro meses de internação. Eu gostei. Foi uma época boa. Fizeram uma avaliação comigo e chegaram à conclusão que era isso mesmo: eu podia sair.”

Havia mais um: Cacau, o galã da turma; branco, magro, alto, sem sorrisos. E a cabeleira castanha alisada mil vezes ao dia. Reticente em sair junto com o poeta (bosta não, cara! O que as pessoas vão pensar se me virem saindo com uma bicha? E minha imagem com a sociedade, como é que fica?), estivera no motel e fora à cidade buscar o “produto”, depois de Fred ter esbravejado (“ah, mas que porra ‛seu’!”) por ninguém ter se lembrado de trazer uma quantidade suficiente de cocaína. Assim, abrindo a bolsa do poeta, Fred tirou o dinheiro e ordenou que o colega fosse à cidade.

“Nós vamos seguir pelo asfalto, o carro vai ficar no acostamento, e não vamos longe. Quando voltar, você segue também e, se não houver ninguém no carro, a gente tá no meio do mato, no milharal. Nós estaremos namorando! É só gritar que alguém aparece.”

“Na verdade, eu já estava perdendo a cabeça com aquilo tudo; aquele negócio de chegar cedo, abrir o escritório, ligar os computadores, distribuir as tarefas, e me debruçar sobre o teclado. Isso era só o começo. Tinha dias que, logo ao chegar, já havia pessoas esperando. Clientes. Pra torrar a paciência. Fazer exigências. Reclamar. Nunca nenhuma delas veio cedo pagar honorários. Nem mesmo trazer notas fiscais e documentos das firmas. Nunca! E quando apareciam os fiscais do estado!? Iam entrando sem cerimônia e metendo a mão! “Vocês sabem, o governo é sócio em todo e qualquer empreendimento comercial!” E havia o patrão bêbado. Sempre apagado – mas chato. E, depois que eu pegava no batente, o dia ia embora. Em certos dias eu até me esquecia de almoçar. Quando dava por mim, já estava na hora de ir para o colégio. E os outros empregados já tinham dado no pé. E o patrão já tinha saído com o Luiz pra “tomar uma pinga ali.”

“Escondi-me sob uma marquise, sentei num degrau de uma loja, bem lá no cantinho, e, então, o destino aprontou: dei de cara com o moço desconhecido, branco, de cabelos castanhos e bochechas salientes; Frederico (Fred), inquieto, veio conversar comigo.”

“Porra, bastou que eu pusesse os pés na rua pra chuva descer. Se eu soubesse que ia chover teria vindo de carro!”

“Mas eu apenas sorri. E, querendo encompridar a conversa, o moço cabeludo se sentou ao meu lado.”

Ela decide se abrir pra ele. E tinha posto as pernas morenas lindas sobre seu colo após o banho, os cabelos molhados soltos, os peitinhos maravilhosos (José Carlos brinca com eles), o robe aberto, e ia lhe mostrando as ferramentas de trabalho: a bolsa com camisinhas, muitas, o creme pra sexo anal. Ela tinha algum dinheiro, roupas, celular moderno, conta em banco e cartão de crédito – e ele não tinha nada! Ela chegava em casa e lhe mostrava. Ela sempre deixa dinheiro pra ele ao sair.

A gente tomava um banho, espalhava umas almofadas sobre o tapete no chão da sala, punha um DVD bem sacana no aparelho, uma música suave, preparava umas bebidas leves (mas José Carlos era reticente com bebidas), ligava uma luz mortiça, negra, tipo boate, as cortinas das janelas puxadas, e ficava ali. Na penumbra. Ficava trepando, inventando coisas um no corpo do outro.” Danda, troçando, dizia que eles estavam treinando pra que ela ficasse boa de cama, “cada vez melhor no troço”, desempenhasse bem o seu trabalho, ganhasse com decência “a nossa” grana.” – até que o celular chamasse, ou, pior ainda, até que viesse algum cliente de carro buscar Amanda na porta, para alguma atividade, não raras vezes demorada.

Agora mesmo, nesta madrugada de sexta-feira para sábado, por exemplo: Amanda tinha saído com um cliente – um viajante. Era o segundo fim de semana que o moço a carregava. Viera buscá-la na quitinete no começo da noite e só voltariam na manhã da segunda-feira. Dormiriam no hotel onde ele estava hospedado. E manteriam este esquema enquanto o rapaz estivesse na cidade.

Mas José Carlos teve muita dificuldade em aceitar aquele papel. Corno manso, gigolô. Pior ainda, depois que sua nova situação ficou evidente, houve comentários generalizados, e muitos de seus antigos colegas, quase todos, passaram a lhe virar as costas, e os poucos que conservaram a amizade falavam com ele de maneira jocosa. José Carlos estranhou, mas foi passageiro. Ele já esperava, de certo modo, por isso. Assim, eles se esticavam sobre o tapete e rolavam um sobre o outro, (amo tanto o seu pau! Sua pica é gostosa demais!) e Danda lhe ensinou coisas que ele não sabia.

“Como quando ela meu chupou pela primeira vez. Rapaz, o pessoal fala que é gostoso, mas, com aquela maestria, é indescritível. E, quanto mais demorado, melhor.”

Ela passou os dois braços em volta do pescoço dele, beijou de leve sua bochecha, e perguntou:

“E então, você quer comer uma bundinha?”

José Carlos queria.

E, enquanto se virava de bruços para apoiar os cotovelos na cama e erguer o traseiro, Danda, outra vez brincando, lhe avisou:

“Na bunda dói! Você empurra bem devagarzinho?”

Ele disse que sim, que empurrava:

“Pode deixar; eu empurro com todo cuidado!”

E ele foi empurrando, e ela gemendo de mentira, e o pau escorregando no gel e penetrando, e ela dizendo:

“Ai, tá doendo! Você falou que...”

Depois, Fred, sabendo que seria cobrado, se explicou:

Ele não apreciava homens. Longe disso. Mas, o poeta tinha grana. E isso era essencial. E era uma grana garantida, segura, e seu pau era outro de seus ganha-pão (enquanto o meu peru estiver subindo, eu tô feito! É o meu cartão de crédito! Vale no mundo inteiro!) – e honesta. Ninguém ameaçaria prendê-lo por estar comendo um cuzinho, fosse de mulher ou de homem, mas, a simples suspeita de que estivesse “passando o pó” já seria suficiente para que a polícia, os detetives, ficasse rondando sua porta, levantando sua vida.

Então, foi isso: era para ser apenas uma história de amor; era pra ter ficado tudo apenas entre Amanda e José Carlos. Mas as coisas não aconteceram assim e agora ele estava ali, encostado no carro, enquanto ouvia os caras dando risinhos, correndo em ziguezague no milharal, dobrando pés de milho, brincando no meio do mato, dizendo: ‛pega! pega!’ na madrugada fria e... Brincando no meio do mato!? Não podia ser! Aqueles sujeitos não eram de brincar em lugar algum! Menos ainda no mato, no escuro, num fim de madrugada! Eles nunca brincavam!

A janela de uma casa, luz acesa, a algumas centenas de metros, até então invisível na noite, foi aberta, e uma silhueta masculina, cabeleira alvoroçada, apareceu perscrutando a noite, o milharal, durante alguns minutos. Depois a janela foi fechada. Então, os moços, vagarosos e em silêncio, Fred à frente, deixaram o milharal. Fred, com o revólver na mão, Robledo logo atrás, manquitolando com dificuldade, escorado na bengala, e Faraó, cabeça baixa, observando com cuidado onde pisava. Fred parou na beira do asfalto, olhou para os lados (ninguém visível na noite), e se aproximou de um José Carlos apavorado.

“Pegue isso!”

Fred lhe estendia a arma.

“Pegue isso, moço, e vá lá.”

“Eu sei que você não tem costume de por a mão neste troço, mas nós saímos pra escrever um poema e você veio com a gente. E nós três já escrevemos a nossa estrofe – só falta a sua. O ‛papel’ está lá no chão... e só tem mais uma bala no revólver.”

José Carlos olhava para a arma.

“Mas você não precisa se considerar um assassino, moço, e nem ficar com remorsos; ele já tá morto.”

Vendo Fred com a arma apontada para ele, José Carlos se lembrou das palavras de Amanda: “Fred é perigoso e não gosta de ser contrariado – e ele não tem princípios.”

Não era com ele; não podia ser!

“Só tem mais uma bala!”

Era com ele!

“O que vocês fizeram? Mataram ele?!”

Os sujeitos não respondem e ele fala:

Cacau, como se meio atordoado com os relatos dos colegas, não se cansava de balançar a cabeça e dizer:

“Não é possível! Não é possível!”

Depois, encostando-se a um dos carros, afirmou:

“Você é muito burro, Fred, matou o cara que te dava dinheiro e ainda te dava a bunda. Vai ser burro, bicho! Matou a galinha dos ovos de ouro, moço!”

“Que galinha...! Ele tava um saco, isso sim! Chato demais! Tava enchendo o saco com essas conversas de poesia! Só conversas fiadas! Literatura! E tava com a bunda muito seca, bunda muito ruim. Depois eu arranjo outra bicha pra me dar dinheiro. Outra bicha de bunda mais cheinha... e que não goste de livros!”

“Você já leu alguma poesia dele?”

“Poesia!? Tá brincando?! Ele falava isso mesmo, falava sem parar que era poeta!”

“Esse negócio de poesia é um troço meio esquisito.”

“Diz que todo poeta é viado, né, cara?”

Observando os amigos, e como se ainda não acreditando, Cacau, abrindo a porta do carro, diz:

“Vamos embora daqui, gente! Vamos embora agora! Nossa, com quem eu fui me envolver! E minha mãe vive me dizendo que eu vou ficar vagabundo! Ela diz que reza muito pra que eu não me torne um marginal!”

Na casa, o morador, na certeza de ter ouvido tiros, de estar ouvindo movimentos estranhos, abre outra vez a janela e olha de um lado para outro dentro da noite, no milharal; em seguida, volta a cabeça pro interior da casa e fala alguma coisa pra alguém. Uma mulher chega o rosto à janela, a cabeleira recortada contra a luz do interior, dá uma olhada dentro da noite, mas, como se não se interessando, não se demora. Passam-se alguns segundos. Então, o moço ouviu motores sendo acionados, viu luzes de faróis sendo acesas na beira da estrada, e dois veículos se afastando, as luzes traseiras avermelhadas.

Então, os carros saíram cantando pneus, velozes, como se tentando fugir até da luz da lua, e, como se buscando uma impossível noite ainda mais fechada, mergulharam na escuridão.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A RELVA NO CAMPO (meu quinto livro, da série JORNADA, ainda não publicado)

A RELVA NO CAMPO

Eu pensei que tivesse dado sorte. Eu tava pintando um apartamento pra um colega meu num prédio na praça central, e aí ele entrou com um cara bêbado bem vestido no apartamento, os caras en­traram em todos os cômodos, olharam o carpete bem protegido por jor­nais, observaram se eu tinha feito um recorte maneiro nas ferragens junto aos vidros e na junção do teto com as paredes, e o bêbado ia cambaleando, tropeçando nos jornais e escorando as mãos nas paredes e depois os caras foram cochichar na cozinha.

Não demorou muito e meu patrão me chamou lá e me apre­sentou pro bêbado e falou que eu era um rapaz muito esforçado, porque trabalhava e estudava e tinha abandonado um curso de Enge­nharia Florestal por absoluta in­compatibilidade de gênio com as matérias e tinha rein­gressado na universi­dade pra cursar Letras, que era um curso mais de acordo com meus propósitos.

O bêbado esfregou os olhos, deu uma cuspida nos ladrilhos do chão e gaguejou:

---- Vo... você trabalha pra... pra qualquer um, Júlio?

---- Trabalho, lógico! Tô sempre correndo atrás de serviço, moço!

---- Vou... vou... vou deixar meu... meu endereço com você! Me... me... procure de vez em quando... que... que sempre tenho serviço!

---- Oh, ótimo!

O bêbado, então, tirou um cartão do bolso da camisa e me passou. Em seguida, os caras se despediram de mim e desapareceram.

O porteiro tava sentado cochilando na portaria, quando desci pra almoçar. Parei ao lado ele, enxugando as mãos na camisa, e disse:

---- Pô, cara, dei a maior sorte!

---- Por quê?

---- Sabe aquele cara que entrou aqui, acompanhando meu patrão?

---- O bêbado?

---- É.

---- O que tem ele?

---- Me disse que gostou muito de meu trabalho e que sem­pre tem serviço de pintura e vai me dar preferência. Vou trabalhar com muita freqüência! Sou calouro de Letras na universidade e sempre vou ter grana pra comprar livros e materiais escolares.

O porteiro esticou as pernas, deu um suspiro, e disse:

---- Pô, cara, você deu o maior azar!

Assustei-me!

---- Por quê?

---- Esse cara é um dos maiores pinguços da cidade e o maior explorador da mão-de-obra dos operários. Se ele fosse bom pa­trão, teria um pintor exclusivo. Não estaria lhe oferecendo serviço. Há tanta gente precisando trabalhar... A grana que você vai ganhar na mão dele mal, mal vai ser suficiente pra você comprar algumas cane­tas...se é que você vai conseguir receber!

O Bêbado era foda! Nem gostava que eu me sentasse nas cadeiras do escritório e ainda me chamou pra pintar a casa dele! Fui assim mesmo. Qualquer tostão que caísse era bem-vindo, eu tava na pior. O cara em mostrou a casa, havia também uma quitinete nos fun­dos do terreiro. O patrão queria tudo supimpa. Havia ainda uma es­ca­da, uma garagem. Muita coisa. Pintei aquilo. Demorado.

Meu patrão bêbado apreciava sobremaneira um carteado. Eu observei. Juntava os vagabundos que moravam na vizinhança e pu­nham mãos à obra. Bebiam todos e todas. E gritavam e davam murros na mesa. Vida feita. E fritavam carnes e cebolas envoltas em papel lami­nado. Era bom pras vistas, alguém afirmou. Comiam aquilo.

Meu patrão era exigente. Me ordenou que eu não me apro­ximasse do terraço quando ele estivesse jogando baralho e bebendo pinga e cerveja e uísque com os amigos. Não gostava de ser incomoda­do. Se precisasse tirar alguma coisa lá, tinha de ser antes de começar a jogatina. A presença de pessoas estranhas tira a concentração, perturba.

---- Tá certo! - eu respondi.

Demorei naquilo, naquela pintura. Naquela merda. Termi­nei numa sexta-feira. Fui no sábado de manhã buscar minhas ferra­mentas. Estavam no terraço. Pensei que pudesse colocar os pés no ter­raço, pois não havia ninguém jogando baralho nem bebendo no lugar. Nem batí à porta da cozinha. Estava fechada e eu ia mesmo apenas passar a mão em minha lata de ferramentas e cair fora. Assim fiz.

Pode parecer implicância minha com a mulher, mas não era. As aulas da dona - da Prima-não-Chefe - eram chatas, eu não era o único que dizia isso, e eu sempre tomava umas pinguinhas antes de ter de enfrentar aquilo. Fazia a cabeça, chegava à sala, me debruçava so­bre o tampo da carteira, e ficava ali. É lógico que a professora notava que eu tava bêbado, mas nunca falou.

Certa noite, ela estava particularmente insuportável. A dona tava achando que meu ouvido era paiol, porra! Afirmava a toda hora que a literatura, assim como a língua portuguesa, era uma coisa linda, maravilhosa. E eu estava particularmente bêbado. Deitei a ca­beça sobre o tampo da carteira e adormeci. Acordei com alguém me cutucando com a ponta da caneta:

---- Hei, cara, a professora tá falando com você!

Acordei sobressaltado. Balancei a cabeça. Olhei pra pro­fessora. A turma estava toda olhando pra mim.

---- Júlio César!

---- Sim, senhora, professora!

---- A resposta pra esta pergunta que estou lhe fazendo?

Eu não sabia, lógico! Chutei:

---- Ah!... é que a língua portuguesa é uma coisa maravi­lhosa! Muito linda mesmo!

A dona me olhou com olhos duros. Disse:

---- Eu estou dando aula de língua portuguesa, Júlio César? Esta é uma aula de literatura brasileira!

A dona acentuou a "literatura brasileira." Ficou me olhando.

---- É mesmo?!

---- Então, qual é a resposta?

---- É que a literatura brasileira é uma coisa maravilhosa!

A mestra balançou a cabeça vagarosamente, com ar de consternação, discordando de minhas palavras, deu um suspiro profun­do, depois, disse:

---- Esta á uma resposta científica, Júlio César?

---- Pensei que servisse.

A dona resolveu me contar prosa:

---- Júlio César, você precisa se dedicar mais à disciplina!

---- Sim senhora, professora!

---- Você precisa se formar, Júlio César! Você é um rapaz pobre! Todo mundo sabe que você precisa se formar!

---- Oh, desculpe, professora! Foi distração!

---- Mas você concorda que você precisa se formar?

---- Concordo sim, professora!

---- Muita responsabilidade, sim, Júlio César?

---- Sim, professora!

---- Você é um bom menino! Tem a cabeça boa, mas é muito vagabundo, Júlio César!

---- Certo!

---- Obrigado por não ter me respondido com grosseria, Júlio César!

---- Não há de quê, professora!

A mestra ficou satisfeita. A turma deixou de me olhar. E ela continuou:

---- Então, gente, nós podemos considerar a literatura, que é uma coisa linda, como um retrato de época e...

Havia a Professora Loura do Inglês, mulher de professor de outro de­partamento, que chegava à sala de aulas batendo os calcanha­res com força no chão, carregando aquela pasta marron lotada de pa­péis, com o nariz empinado, talvez se achando a melhor professora de língua inglesa do mundo.

Havia a outra professora de Inglês, que tinha traba­lhado na Macy's em Nova Iorque, não tinha sido descoberta por ne­nhum agente de Hollywood, mas tinha conseguido se casar com um pós-doutor que tinha se empregado na universidade e tinha se tornado, por conseguin­te, profes­sora do departamento de Letras.

Havia a parente dos políticos, de pessoas influentes, de famílias tradicionais da sociedade da cidade, que tinha comprado um diploma em uma faculdade particular, e que dava aulas de Litera­tu­ra, e era a chefe do departamento, prima do prefeito, mulher de um cara que se considerava poeta.

Havia o cara que se considerava poeta, claro, esposo da Prima-Chefe, e que tinha comprado diploma em uma faculdade particu­lar e tinha se tornado, através de seus laços matrimoniais, pro­fessor de Literatura portuguesa no departamento de Letras.

Havia a Irmã-do-Pró-Reitor, que também tinha comprado um diploma em uma faculdade particular, e tinha sido colocada pra dar aulas de português pro curso de Letras, não tinha segurado as barras, e tinha sido transferida pros cursos de área 1, onde os alunos faziam dis­ciplina de nivelamento, e onde ela ficava sempre repetindo as mesmas coisas - sujeito-verbo-predicado - e onde ela estava tendo oportunidade de apren­der a matéria.

Havia a Prima-não-Chefe, que também tinha comprado um diploma em uma faculdade particular, e dava aulas de literatura e por­tuguês e do que mais fosse necessário, e que dava pulinhos dentro da sala de aulas, e que conferia a matéria num caderno de segundo grau, e rodava a saia, e escrevia garranchos no quadro-negro, e que afirmava amiúde que a língua portuguesa era uma coisa maravilhosa e fazia raiva em todo mundo.

Havia a mulher de um professor de outro departamento, que tinha comprado diploma em uma faculdade particular, e tinha pas­sado debaixo dos panos num concurso interno e estava ocupando o lu­gar do marido da Prima-Chefe, que tinha saído pra fazer doutorado.

Havia a professora de Francês, mulher de professor de ou­tro departamento, que tinha estudado na França e falava sempre que ti­nha horror de se lembrar do Quartier Latin, e do Montparnasse, porque estes locais são cheios de artis­tas e os artistas são muito sujos e os pombos cagavam em toda a praça e os franceses nunca tomavam banho e que ela nunca mais gos­taria de voltar à França.

Nós pensávamos que os parentes já tinham dado sua cota. Era muita gente! Qual nada! Logo no princípio do período entrou uma mulher na sala de aulas. A dona parecia uma pata choca. Baixinha, gordinha, de cabelos castanhos, de óculos de grau com aros dourados, andar vagaroso, e aquela pasta marron nas mão direita. Não sei porque tanto os professores do departamento de Letras gostavam de carregar aquelas pastas marrons cheias de papéis! Então, a dona entrou na sala e se apresentou: era uma das professoras do estágio de portu­guês. Ia dar as aulas teóricas. A mulher fez uma série de exigências: que os alunos nunca deixassem de dar uma lida na matéria antes das aulas. Isto seria cobrado sempre. Que os alunos sempre participassem das aulas. A não participação implicaria em perda de pontos. E que nin­guém perdesse aulas! Alunos relapsos depõem contra a universidade, sujem o nome da instituição.

Certo! Muito certo!

Que tristeza! Lá estava: o nome da Prima-não-Chefe no meu horário. A dona ainda ia ficar me enchendo o saco durante meu último período de universidade! Era foda! No meu último Português. E logo nos meus dois últimos horários, duas vezes por semana! Eu podia pre­parar o espírito. Seria preciso fazer muita força pra não dormir. Logo, logo ela estaria rodando a saia, dando pulinhos, conferindo os tópicos no caderno, e fazendo merda, e falando merda, e interrompendo a aula, e dizendo:

---- Parece que há alguma coisa errada aqui, não é, gente?

E a turma nada responderia. Nas aulas da coroa sempre havia muitas coisas erradas!

E a dona ia dizer:

---- A língua portuguesa é uma coisa maravilhosa, mas é um tanto complicada, não é, gente?

E os alunos balançariam as cabeças, concordando.

Que saco, porra!

Antes da festa de formatura costumava se fazer um jantar com os formandos e os professores homenageados. E assim foi feito. Alguns alunos formandos não compareceram ao nosso jantar. Eu fui, lógico! Aconteceria em um restaurante chique e os professores homenageados é que iam pagar a conta!

Havia chovido, o ar estava ótimo! Fresco, aromático! Nos reunimos ao redor de uma mesa, toalha alvíssima, garçons prestativos, ambiente de pessoas de nível social superior. Havia apenas quatro formandos e três professoras: A Professora Loura, do Inglês, a Mulatona do Português, e a Professora de Francês. Sorte o resto da turma não ter aparecido. Assim, sobravam mais comida e bebida!

Enquanto alguns de nós ocupávamos nossos lugares, a Professora Loura mais a Mulatona tinham ido ao banheiro. Preparar o estômago e a bexiga para a comilança e a bebedeira, sem dúvida!

Voltaram!

A Professora Loura se sentou entre a Mulatona e eu. À nossa frente se sentaram outra professora do departamento, professora de Francês - esposa de professor de outro departamento - lógico! - e uma formanda esposa de outro professor - talvez futura professora da universidade, se desse a 1ógica costumeira, claro!, além de um formando com sua namorada.

--- O que você vai fazer após sua formatura, Julio César? - a lourona me perguntou.

---- Não sei! Talvez eu estude mais!

---- Isso mesmo, rapaz! Você deve explorar sua inteligência! Você tem muita facilidade para essas coisas, não é mesmo?

---- É!

Em seguida, a Professora Loura abriu o cardápio com as pontinhas dos dedos longos, deu uma olhada e perguntou:

---- O que nós vamos comer?

Ficou olhando para nossas caras por alguns segundos. Como ninguém se manifestasse, ela completou:

---- Eu sugiro um medalhão!

Medalhão! Que era aquilo? Eu não sabia e era melhor prestar atenção no produto, porque eu estava em vias de subir na escala social!

---- Vamos de medalhão! - todos concordaram. .

---- E, para beber, eu sugiro um Liebfraumilch! É um vinho branco alemão ótimo! - ela disse, escandindo as silabas, arredondando excessivamente os lábios.

---- Vamos de alemão! - todos concordaram.

O garçom estava de pé ao lado da mesa, humildemente esperando as ordens da madame e de suas colegas. A Professora Loura fez os pedidos, o garçom, pressuroso, anotou tudo em uma cadernetinha e se foi. Foi buscar os breguetes!

Eu dei uma cubada na Professora Loura, do Inglês: a dona havia se produzido sobremaneira para o nosso jantar. Provavelmente ficara muito tempo na frente· do espelho fazendo escova, porque dava para se ver perfeitamente os sulcos nos longos cabelos louros. Os lábios estavam perfeitamente delineados com batom excessivamente vermelho.

E ela ia falando com voz metálica, fazendo olhos de· peixe morto, e fazendo boca de peixe morto, e fazendo aqueles gestos estudados, e entortando a cara ora para a esquerda, ora para a direita, e jogando a cabeleira escovada para um lado e para o outro, e dizendo:

---- Quando eu lecionava na Universidade de Brasília, os alunos nunca me perturbaram. E olhem que eles são extremamente rebeldes! Eles nunca interromperam uma. aula minha! Apenas ficavam do lado de· fora da sala, batendo com os punhos fechados nas paredes e fazendo:

----TUM! TUM! TUM!

E ela arregalava os olhos e nós ficávamos olhando pra ela de olhos também arregalados, abismados com a chiqueza da dona. O garçom se aproximou, colocou um balde de gelo sobre a mesa. Dentro, uma garrafa verde - o Liebfraumilch!- o alemão!

A Professora Loura:

---- Meus filhos vão estudar nos Estados Unidos! Os cursos de matemática dos colégios americanos são muito melhores do que os cursos de matemática dos colégios brasileiros e ...

O garçom novamente se aproximou, colocou uma travessa sobre a mesa - o medalhão! Olhei. Ora, em apenas um grande pedaço redondo de ticha - una carne tostada, provavelmente pernil - recheada com alguma coisa!

---- .... e, à medida que eles forem aprendendo matemática, eles também vão ficando fluentes em Inglês. Assim, ao terminarem o curso, serão bons em matemática e bilíngües!

Chique!

Eu tinha pegado meu canudo e estava pensando que era o fim da jornada.

Não era.

Na verdade, a jornada estava apenas começando. E estava na parte mais difícil! Uma longa e tormentosa estrada!

Foi logo no começo do ano. Princípio de janeiro. Me disse­ram: um cursinho de Inglês tava precisando de professores. Mesmo sem ex­periência. Estavam fazendo seleção. Boca boa, dava status, projeção social. E alguma grana, lógico! Passei a mão em meu canudo e corri lá. Pen­sei de o pes­soal nem me deixar passar pela porta. Enga­no. A chefe, lá também havia uma chefe, me atendeu com toda a aten­ção, me ofereceu um cafezinho. Me aplicou uma prova escrita, me pediu pra voltar no outro dia. Ela ia dar uma lida no troço.

Voltei lá no outro dia. Os pro­fessores riam pra mim. Sem dúvida, minha prova tinha feito sucesso. A chefe me chamou pra uma sala e se pôs a falar inglês comigo. E eu ia entendendo tudinho.

---- If you had much money what would you like to do, Jú­lio?

Se eu tivesse dinheiro?! Porque ela sabia que eu não tinha? Como ela tinha adivinhado que eu não tinha?!

---- If I had much money I would like to travel all over the world. I would like to know as many countries as possible!

---- Good! Very good!

A chefe ia me falando e rindo e eu ia também rindo e pen­sando: olha aí, cara, se você não tivesse tolerado o nhém-nhém-nhém do Topete Louro, se você não tivesse tolerado as gororobas da Prima-não-Chefe, se você não tivesse suportado a morrinha da mestra de lite­ratura e a encheção de saco de todo aquele pessoal e aquelas merdas todas, você não teria pegado o canudo, e você não te­ria estado no res­taurante com as madames e os formandos de classe média bebendo aqueles troços to­dos e comendo aquelas carnes nem es­taria aqui agora conversando em língua estran­geira com esta mulher finís­sima, da soci­edade - de nível social superi­or!

Dei um sorriso de mim para mim e a mulher notou e me perguntou:

---- What is happening? Why are you laughing? Have I said anything amusing?

Eu respondi:

---- No, no! I have just remembered a very pleasant fact!

E nós continuamos falando inglês e a mulher, pra finalizar minha entrevista, disse:

---- Well, I can observe you are a very good promise as an English teacher.

Fiquei atento. Sem dúvida a dona ia me empregar! Estava saindo da universidade e estava logo conseguindo minha primeira co­locação! Asim eu pensava.

E ela logo completou:

---- Unhappily enough I have two pupils who are sons of a teacher of the university. And he told me at the term begginning: I can put my two sons in your school if you put my wife as a teacher of the school. And I could do nothing but accept! The teacher's wife is a disas­ter as an English teacher... but I need the money of her husband! And things like these never let to happen! It's a tradegy!

A tradegy!?

Fiquei puto! Gritei:

---- PORRA!

Mas certa vez me aconteceu uma coisa diferente. O cara me chamou, tratei o preço com ele. O sujeito foi com minha cara. Me dei­xou sozinho no apartamento. Ou melhor, me deixou com seu filho ma­luco. Eu nem sabia que o sujeito não batia bem dos pinos. Logo após o pai do cara deixar o apartamento (ele era separado da mulher, traba­lhava fora da cidade e só tinha aquele filho), o maluco, baixinho, care­ca, saiu do quarto e veio:

---- Sabe aquela pedra grande que tem lá assim?

O pinel fez um gesto em concha pra dentro da barriga e eu perguntei:

---- Que pedra?

---- Aquela grandona.

Olhei pro cara. Os olhos do bicho não tinham o brilho da normalidade. Ele olhava pra mim, mas certamente enxergava minha nuca. Olhos vazios, mortiços. Mas de um bonito azul-claro.

Eu não sabia de nenhuma pedra, mas falei que eu conhecia a pedra e ela era realmente grande.

---- Sei. O que tem ela?

---- É... é... é... tem urubu lá e....

Oh, saco! Urubu!

---- ... e, quando eles vão voar eles fazem a volta assim e...

Era muita sorte!

---- ...e Deus faz as coisas e...

Ele sabia da existência de Deus!

---- ... e Ele pôs os urubus lá e eles fazem limpeza!

Ora, os urubus!

Eu estava sentado lá no bar.

Havia chovido alguma coisa, o sol tinha reaparecido, a tar­de estava bela, bela e eu tomava cerveja. Tesourinhas brancas e ne­gras davam vôos picados no ar e abriam belamente suas longas caudas, pipilando prazerosamente. Os pneus dos carros provocavam um bonito som contínuo no asfalto molha­do, a tarde era bela, o mundo era belo, passavam belas mulheres na rua ensopada, estava tudo belo. Um burro cinza-claro molhado co­mia ile­galmente o capim mo­lhado no gramado da universidade. Comia ile­galmente o capim mo­lhado e abanava o rabo, satisfeito. Fiquei be­bendo. Aquela tarde pro­metia! Estiquei as ca­nelas e aspirei o ar quente da tarde bela. Estava em paz e queria que aquela tranquilidade conti­nuasse indefinidamente. Que ninguém viesse me encher o saco!

A cerveja ia descendo macio e eu logo ia acabando com uma garrafa e pedindo outra. Estava bom, sossegado demais pra ser verdade! Lá longe, perto das quatro pilastras, o Robério apareceu. Pen­sei em correr pro banheiro. Depois, desisti. Ele não ia parar pra me torrar o saco! Era de veneta, o cara, e tinha muito tempo que nós nem nos víamos. Desde quando ele apresentara o seminário e sumira. Cer­tamente, ficava os dias enfiado no meio do mato, sentado num toco. Pensando. Altas filo­sofias. E os passarinhos cagando na cabeça dele. Estava barbudo, cabe­ludo, desleixado. Era de fato triste a sina dos inte­lectuais.

Não dei sorte. Robério se aproximou de minha mesa, pôs as mãos à cintura, e disse, com desdém, a voz rouca:

---- Então, está a beber cerveja?

Barroco, o cara!

"Bom, uma tarde fui à casa me encontrar com ela e a puta tinha desaparecido, a dona dos cômodos me disse que a tinha dispensado de sua residência, não a queria mais ali. Por que? eu indaguei. Ela pita muito baseado, a dona disse. Tem dias que eu tô aqui em cima com meus filhos e nem preciso fumar aquela merda pra ficar de cabeça feita: minha casa se enche de fumaça! E já tinha ameaçado ela antes. Muitas vezes."

"Ela pita o troço, então?"

"Pita o troço?! Ela toma pico nas veias, toma chá de cogu­melo, faz qualquer negócio! Se você lhe disser que bosta dá grilo, ela bebe chá de bosta, toma na veia. É maluquinha!"

"Oh, que pena, eu exclamei, ela é tão boa de xoxota!"

E a dona dos cômodos disse:

"Não se iluda com esta sirigaita não. Ela tem mais de trinta homens. Tem um velho aí que vive enfiando grana nela. Eles fi­cam horas a fio em cima da cama de um hotel aí na cidade".

"Ela tem muitos amantes, então?"

"Tem. Todo mundo fala que ela é muito boa de xoxota. Boa demais."

"Então, eu fiquei conversando com a mulher durante alguns minutos, e pra não perder a viagem, fui pra cama com ela. Ela tinha quarenta e cinco anos e era muito larga, aguada, ruim. Mas comi aquilo assim mesmo."

"E nunca mais viu a Luziinha?"