NOITE DE POEMA
(do livro de contos “Noites Sem Fim”)
[ainda não publicado]
“Ah, mas que...!”
Era a expressão, raivosa, mais comum de Frederico (Fred), raramente deixada de vir acompanhada de um palavrão: “Ah, mas que saco!”, “Ah, mas que porra!”, “Ah, mas que merda!”, “Ah, mas que boceta!” Coisas do tipo. Era assim. Mas agora, com o carro estacionado no alto do promontório, onde a rodovia principiava uma perigosa descida por entre as montanhas envoltas na neblina, na madrugada, rumo ao fundo do vale, a lua muito alta e cheia, o silêncio, os picos dos morros furando, escuros, a espuma irregular que descera sobre todo o enorme vale, ele, talvez pela primeira vez, se deixara levar pela beleza do cenário noturno, ou, do mesmo modo, pela primeira vez enxergando beleza em alguma coisa, ele, tão cético, tão descrente de tudo do que ele não pudesse tirar algum tipo de vantagem, algum proveito, escorara o braço esquerdo na janela do carro, apoiara o queixo na mão, e mirava a noite, o pulso da mão direita apoiado com displicência sobre o volante.
“Ah, mas que coisa, “seu”! Não é que, se você prestar atenção, pode enxergar imagens bonitas nesses troços mesmo?!”
Sentado atrás do banco do carona, sentindo o bafo quente (cerveja e uísque) e o cheiro acre de um certo tipo de vegetal (maconha) provenientes dos outros ocupantes do carro, e olhando para a nuca do dono do veículo, que ocupava o banco da frente, José Carlos tinha outros pensamentos - e não era na beleza da noite em que ele pensava. Ainda há pouco, aboletados em volta da mesa do bar do motel na beira do asfalto, ali mesmo, a poucas centenas de metros atrás, os rapazes, quatro, enquanto bebiam à custa do poeta, o dono do carro, o ouviam, entre indiferentes e curiosos, discorrer sobre o “fazer poético”, e dizer que “como já disse um poeta: ٰlutar com as palavras é a luta mais vã, mas, mesmo assim,- e talvez por causa disso -, eu amiúde luto”′, e riram ao ouvi-lo afirmar que as noites enluaradas eram propícias à feitura de poemas, e que eles, nessa noite ¨banhada pela luz diáfana do luar¨, fariam um “belo poema” juntos. E ele, moreno-claro, magro, rosto afilado, nariz pequeno, cabelos pretos rasteiros levemente ondulados penteados para trás, acentuadas entradas laterais, voz dócil (mas não servil), sorriso meigo nos lábios muito finos, óculos de delgados aros dourados, brincou:
“Caso eu venha a publicar o poema e ganhar algum direito autoral, alguma grana, ninguém será esquecido: todos vocês, meus colegas, serão recompensados!” E riu: “He! He!”
Mas ele tentara mudar – ou presumia ter tentado. Os rapazes gostavam de relembrar de como o moço, sentindo-se perdido, passara, num lampejo de lucidez e autocrítica, a freqüentar um órgão assistencial de apoio a alcoólatras e drogados. “Era internato, tempo integral. Lá eu trabalhava desde cedo, - ele dizia, raras vezes (Robledo evitava falar no assunto), constrangido (fora uma batalha perdida, mas bem que gostaria de tê-la ganho; e se aborrecia com isso) dormia cedo e me levantava cedo. Eu e todos os moradores da casa. A gente tinha uma penca de atividades produtivas pra desempenhar. Horta, lavanderia, cozinha, essas coisas. E, à noite, leitura, pra quem gostasse, televisão ou jogo de cartas. E não era preciso pagar nada – mas era preciso seguir as normas da casa. Enquanto me aceitaram, fui ficando. Até que meu saco estourou; mas, aí, eu até já estava me achando recuperado. Tinha certeza disso! Fui atrás do chefe da casa e falei: “acho que posso sair. Tô sarado!” Tinham sido quatro meses de internação. Eu gostei. Foi uma época boa. Fizeram uma avaliação comigo e chegaram à conclusão que era isso mesmo: eu podia sair.”
Havia mais um: Cacau, o galã da turma; branco, magro, alto, sem sorrisos. E a cabeleira castanha alisada mil vezes ao dia. Reticente em sair junto com o poeta (bosta não, cara! O que as pessoas vão pensar se me virem saindo com uma bicha? E minha imagem com a sociedade, como é que fica?), estivera no motel e fora à cidade buscar o “produto”, depois de Fred ter esbravejado (“ah, mas que porra ‛seu’!”) por ninguém ter se lembrado de trazer uma quantidade suficiente de cocaína. Assim, abrindo a bolsa do poeta, Fred tirou o dinheiro e ordenou que o colega fosse à cidade.
“Nós vamos seguir pelo asfalto, o carro vai ficar no acostamento, e não vamos longe. Quando voltar, você segue também e, se não houver ninguém no carro, a gente tá no meio do mato, no milharal. Nós estaremos namorando! É só gritar que alguém aparece.”
“Na verdade, eu já estava perdendo a cabeça com aquilo tudo; aquele negócio de chegar cedo, abrir o escritório, ligar os computadores, distribuir as tarefas, e me debruçar sobre o teclado. Isso era só o começo. Tinha dias que, logo ao chegar, já havia pessoas esperando. Clientes. Pra torrar a paciência. Fazer exigências. Reclamar. Nunca nenhuma delas veio cedo pagar honorários. Nem mesmo trazer notas fiscais e documentos das firmas. Nunca! E quando apareciam os fiscais do estado!? Iam entrando sem cerimônia e metendo a mão! “Vocês sabem, o governo é sócio em todo e qualquer empreendimento comercial!” E havia o patrão bêbado. Sempre apagado – mas chato. E, depois que eu pegava no batente, o dia ia embora. Em certos dias eu até me esquecia de almoçar. Quando dava por mim, já estava na hora de ir para o colégio. E os outros empregados já tinham dado no pé. E o patrão já tinha saído com o Luiz pra “tomar uma pinga ali.”
“Escondi-me sob uma marquise, sentei num degrau de uma loja, bem lá no cantinho, e, então, o destino aprontou: dei de cara com o moço desconhecido, branco, de cabelos castanhos e bochechas salientes; Frederico (Fred), inquieto, veio conversar comigo.”
“Porra, bastou que eu pusesse os pés na rua pra chuva descer. Se eu soubesse que ia chover teria vindo de carro!”
“Mas eu apenas sorri. E, querendo encompridar a conversa, o moço cabeludo se sentou ao meu lado.”
Ela decide se abrir pra ele. E tinha posto as pernas morenas lindas sobre seu colo após o banho, os cabelos molhados soltos, os peitinhos maravilhosos (José Carlos brinca com eles), o robe aberto, e ia lhe mostrando as ferramentas de trabalho: a bolsa com camisinhas, muitas, o creme pra sexo anal. Ela tinha algum dinheiro, roupas, celular moderno, conta em banco e cartão de crédito – e ele não tinha nada! Ela chegava em casa e lhe mostrava. Ela sempre deixa dinheiro pra ele ao sair.
A gente tomava um banho, espalhava umas almofadas sobre o tapete no chão da sala, punha um DVD bem sacana no aparelho, uma música suave, preparava umas bebidas leves (mas José Carlos era reticente com bebidas), ligava uma luz mortiça, negra, tipo boate, as cortinas das janelas puxadas, e ficava ali. Na penumbra. Ficava trepando, inventando coisas um no corpo do outro.” Danda, troçando, dizia que eles estavam treinando pra que ela ficasse boa de cama, “cada vez melhor no troço”, desempenhasse bem o seu trabalho, ganhasse com decência “a nossa” grana.” – até que o celular chamasse, ou, pior ainda, até que viesse algum cliente de carro buscar Amanda na porta, para alguma atividade, não raras vezes demorada.
Agora mesmo, nesta madrugada de sexta-feira para sábado, por exemplo: Amanda tinha saído com um cliente – um viajante. Era o segundo fim de semana que o moço a carregava. Viera buscá-la na quitinete no começo da noite e só voltariam na manhã da segunda-feira. Dormiriam no hotel onde ele estava hospedado. E manteriam este esquema enquanto o rapaz estivesse na cidade.
Mas José Carlos teve muita dificuldade em aceitar aquele papel. Corno manso, gigolô. Pior ainda, depois que sua nova situação ficou evidente, houve comentários generalizados, e muitos de seus antigos colegas, quase todos, passaram a lhe virar as costas, e os poucos que conservaram a amizade falavam com ele de maneira jocosa. José Carlos estranhou, mas foi passageiro. Ele já esperava, de certo modo, por isso. Assim, eles se esticavam sobre o tapete e rolavam um sobre o outro, (amo tanto o seu pau! Sua pica é gostosa demais!) e Danda lhe ensinou coisas que ele não sabia.
“Como quando ela meu chupou pela primeira vez. Rapaz, o pessoal fala que é gostoso, mas, com aquela maestria, é indescritível. E, quanto mais demorado, melhor.”
Ela passou os dois braços em volta do pescoço dele, beijou de leve sua bochecha, e perguntou:
“E então, você quer comer uma bundinha?”
José Carlos queria.
E, enquanto se virava de bruços para apoiar os cotovelos na cama e erguer o traseiro, Danda, outra vez brincando, lhe avisou:
“Na bunda dói! Você empurra bem devagarzinho?”
Ele disse que sim, que empurrava:
“Pode deixar; eu empurro com todo cuidado!”
E ele foi empurrando, e ela gemendo de mentira, e o pau escorregando no gel e penetrando, e ela dizendo:
“Ai, tá doendo! Você falou que...”
Depois, Fred, sabendo que seria cobrado, se explicou:
Ele não apreciava homens. Longe disso. Mas, o poeta tinha grana. E isso era essencial. E era uma grana garantida, segura, e seu pau era outro de seus ganha-pão (enquanto o meu peru estiver subindo, eu tô feito! É o meu cartão de crédito! Vale no mundo inteiro!) – e honesta. Ninguém ameaçaria prendê-lo por estar comendo um cuzinho, fosse de mulher ou de homem, mas, a simples suspeita de que estivesse “passando o pó” já seria suficiente para que a polícia, os detetives, ficasse rondando sua porta, levantando sua vida.
Então, foi isso: era para ser apenas uma história de amor; era pra ter ficado tudo apenas entre Amanda e José Carlos. Mas as coisas não aconteceram assim e agora ele estava ali, encostado no carro, enquanto ouvia os caras dando risinhos, correndo em ziguezague no milharal, dobrando pés de milho, brincando no meio do mato, dizendo: ‛pega! pega!’ na madrugada fria e... Brincando no meio do mato!? Não podia ser! Aqueles sujeitos não eram de brincar em lugar algum! Menos ainda no mato, no escuro, num fim de madrugada! Eles nunca brincavam!
A janela de uma casa, luz acesa, a algumas centenas de metros, até então invisível na noite, foi aberta, e uma silhueta masculina, cabeleira alvoroçada, apareceu perscrutando a noite, o milharal, durante alguns minutos. Depois a janela foi fechada. Então, os moços, vagarosos e em silêncio, Fred à frente, deixaram o milharal. Fred, com o revólver na mão, Robledo logo atrás, manquitolando com dificuldade, escorado na bengala, e Faraó, cabeça baixa, observando com cuidado onde pisava. Fred parou na beira do asfalto, olhou para os lados (ninguém visível na noite), e se aproximou de um José Carlos apavorado.
“Pegue isso!”
Fred lhe estendia a arma.
“Pegue isso, moço, e vá lá.”
“Eu sei que você não tem costume de por a mão neste troço, mas nós saímos pra escrever um poema e você veio com a gente. E nós três já escrevemos a nossa estrofe – só falta a sua. O ‛papel’ está lá no chão... e só tem mais uma bala no revólver.”
José Carlos olhava para a arma.
“Mas você não precisa se considerar um assassino, moço, e nem ficar com remorsos; ele já tá morto.”
Vendo Fred com a arma apontada para ele, José Carlos se lembrou das palavras de Amanda: “Fred é perigoso e não gosta de ser contrariado – e ele não tem princípios.”
Não era com ele; não podia ser!
“Só tem mais uma bala!”
Era com ele!
“O que vocês fizeram? Mataram ele?!”
Os sujeitos não respondem e ele fala:
Cacau, como se meio atordoado com os relatos dos colegas, não se cansava de balançar a cabeça e dizer:
“Não é possível! Não é possível!”
Depois, encostando-se a um dos carros, afirmou:
“Você é muito burro, Fred, matou o cara que te dava dinheiro e ainda te dava a bunda. Vai ser burro, bicho! Matou a galinha dos ovos de ouro, moço!”
“Que galinha...! Ele tava um saco, isso sim! Chato demais! Tava enchendo o saco com essas conversas de poesia! Só conversas fiadas! Literatura! E tava com a bunda muito seca, bunda muito ruim. Depois eu arranjo outra bicha pra me dar dinheiro. Outra bicha de bunda mais cheinha... e que não goste de livros!”
“Você já leu alguma poesia dele?”
“Poesia!? Tá brincando?! Ele falava isso mesmo, falava sem parar que era poeta!”
“Esse negócio de poesia é um troço meio esquisito.”
“Diz que todo poeta é viado, né, cara?”
Observando os amigos, e como se ainda não acreditando, Cacau, abrindo a porta do carro, diz:
“Vamos embora daqui, gente! Vamos embora agora! Nossa, com quem eu fui me envolver! E minha mãe vive me dizendo que eu vou ficar vagabundo! Ela diz que reza muito pra que eu não me torne um marginal!”
Na casa, o morador, na certeza de ter ouvido tiros, de estar ouvindo movimentos estranhos, abre outra vez a janela e olha de um lado para outro dentro da noite, no milharal; em seguida, volta a cabeça pro interior da casa e fala alguma coisa pra alguém. Uma mulher chega o rosto à janela, a cabeleira recortada contra a luz do interior, dá uma olhada dentro da noite, mas, como se não se interessando, não se demora. Passam-se alguns segundos. Então, o moço ouviu motores sendo acionados, viu luzes de faróis sendo acesas na beira da estrada, e dois veículos se afastando, as luzes traseiras avermelhadas.
Então, os carros saíram cantando pneus, velozes, como se tentando fugir até da luz da lua, e, como se buscando uma impossível noite ainda mais fechada, mergulharam na escuridão.
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